O Que Significa “a Carne” Na Bíblia?

A expressão “na carne” aparece diversas vezes no Novo Testamento, especialmente em Romanos 7, e é frequentemente mal compreendida. Muitos cristãos sinceros perguntam: o que significa “estar na carne” segundo a Bíblia? Alguns entendem isso como simplesmente “ser humano” ou “ter uma natureza pecaminosa”, mas as Escrituras usam esse termo de uma forma bem diferente.

Compreender corretamente o que a Bíblia quer dizer com “estar na carne” é essencial para compreender o evangelho, aprender a andar no Espírito e viver a vida cristã que Deus realmente planejou.


Oi, pessoal! Sei que faz um tempo desde o último artigo. Nossa segunda filhinha nasceu há cerca de um mês, então as coisas têm sido bem corridas! Enquanto cuidava dela, tenho estudado mais grego e, recentemente, li pela primeira vez a Carta aos Romanos inteira em grego.

Um dos erros mais comuns — e mais prejudiciais — que tenho visto na igreja é o entendimento equivocado sobre como a Bíblia emprega o termo “a carne”. Por causa dessa compreensão errada, muitos cristãos sequer acreditam que seja possível viver uma vida cristã normal, andando no Espírito e em comunhão com Deus.

Eles passam a acreditar que a vida cristã será sempre uma luta constante contra o pecado e que não há nada que possa ser feito a respeito disso. E, se isso é o que você acredita, provavelmente será o que você vai experimentar.

Já ouvi muitos cristãos dizendo coisas que refletem esse entendimento equivocado. Quando, depois, eles falam sobre lutas com pornografia e pecados sexuais, isso não me surpreende. Eu quero ajudar, mas nem todos têm ouvidos para ouvir.

Para aqueles que, no passado, entenderam mal o que é “a carne”, mas agora estão dispostos a ouvir, o entendimento que vou compartilhar aqui tem o potencial de revolucionar completamente a sua vida cristã.

O que a Bíblia quer dizer com “estar na carne”?


Para entender como a Escritura usa essa expressão, precisamos olhar com atenção para Romanos 7 e para o que, de fato, significa estar “na carne”.

Romanos 7:14–25 (Almeida NAA)

Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, porém, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que quero, mas faço o que aborreço. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, reconhecendo que ela é boa. Neste caso, quem faz isso já não sou eu, mas o pecado que habita em mim.

Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum; pois o querer o bem está em mim, mas não o realizá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.


Assim, encontro esta lei: quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei, que guerreia contra a lei da minha mente e me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.

Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sirvo à lei de Deus, mas, segundo a carne, à lei do pecado.

Por Que Romanos 7 Costuma Ser Lido Fora do Contexto


Já ouvi inúmeras vezes cristãos lerem esse texto e interpretarem assim: “Ainda temos a carne, então a vida cristã será sempre uma luta constante. Vamos sempre falhar porque somos humanos. Só seremos realmente livres quando morrermos.” Você percebe o quão prejudicial essa mentalidade é? Afinal, quem nos salva do pecado: a morte ou Jesus?

É muito comum ouvir frases como: “Somos humanos, então sempre vamos errar”, usadas para normalizar o pecado contínuo. Essas frases podem soar humildes, mas revelam uma doutrina por trás delas.

Aquilo que acreditamos sobre o significado de “a carne” molda, silenciosamente, nossas expectativas sobre a vida cristã. Quando a carne é entendida como a própria condição humana, a derrota se torna normal, a vitória parece irreal e a dependência do Espírito Santo é substituída pela resignação.

A Bíblia emprega o termo “a carne” de maneiras distintas, conforme o contexto. Quero mostrar que “na minha carne”, em Romanos 7, não significa “na minha condição humana”. Andar na carne é o oposto de andar no Espírito. E todos nós podemos andar no Espírito por meio do dom gratuito da justiça e do poder do Espírito Santo.

“Estar na carne” não significa “condição humana” — nem descreve a vida do cristão


1 João 4:2–3 (Almeida NAA)

Nisto vocês conhecem o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus.

Muitos escritos do Novo Testamento, especialmente 1 João e Colossenses, combatem uma heresia conhecida como gnosticismo. Os gnósticos acreditavam que o mundo material era mau e corrupto, enquanto o mundo espiritual era puro.

Por isso, eles negavam que Jesus tivesse vindo como homem. Para eles, era impossível que um Deus santo habitasse um corpo humano. A salvação, segundo essa visão, seria a libertação do espírito do corpo.

Muitos cristãos hoje pensam de forma semelhante aos gnósticos ao acreditarem que somente a morte os libertará do pecado, em vez de confiarem na obra redentora completa de Jesus para serem libertos do pecado ainda em seus corpos.

Em Romanos 7, “estar na carne” refere-se a viver apoiado em recursos naturais, independentemente de Deus — não apenas a ter um corpo físico. Ao contrário da visão gnóstica, o evangelho da encarnação une o espiritual e o físico. Temos corpos físicos, mas vivemos em comunhão com Deus, que é Espírito. Não vivemos independentes dEle.

Essa é uma das razões pelas quais a cura física é parte essencial do evangelho.

Estar em Adão é Estar na Carne; Estar em Cristo é Estar no Espírito


Você já leu a Carta aos Romanos inteira de uma só vez? Eu já — várias vezes. Quando fazemos isso, percebemos que interpretar “a carne” em Romanos 7 como “a condição humana” entra em conflito com outros textos da própria carta. Existem dois tipos de humanidade: os que estão em Adão e os que estão em Cristo. Em qual você está?

Romanos 5:12–21 (Almeida NAA)

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os seres humanos, porque todos pecaram.

Porque até o regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir.

Mas o dom gratuito não é como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um só morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes para muitos.

O dom não é como no caso em que somente um pecou. Porque o julgamento derivou de uma só ofensa para condenação, mas a graça resultou de muitas ofensas para justificação.

Se, pela ofensa de um só, a morte reinou por meio de um só, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo.

Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os seres humanos para justificação que dá vida.

Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.

A lei veio para que aumentasse a ofensa; mas onde aumentou o pecado, aumentou ainda mais a graça,

a fim de que, assim como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.

Romanos 5 contradiz a ideia de que “estar na carne” significa simplesmente “ser humano”. Os que estão em Cristo são humanos justificados, pertencentes ao segundo Adão, para reinar em vida por meio de Jesus Cristo.

Algumas traduções da Bíblia interpretam a expressão grega “na carne” como “natureza pecaminosa”. A partir disso, muitos cristãos leem Romanos 7 fora do contexto e chegam à conclusão equivocada: “Sempre vou lutar contra o pecado porque ainda tenho essa velha natureza pecaminosa.”

Por causa desse entendimento errado de Romanos 7 e do que significa estar “na carne”, eles passam a se considerar vivos para o pecado, como se o pecado ainda definisse sua identidade. No entanto, isso contradiz diretamente o que Paulo afirma no capítulo anterior de Romanos.

Romanos 6:1–11 (Almeida NAA)

Que diremos, então? Continuaremos no pecado para que a graça aumente? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou será que vocês não sabem que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?

Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.

Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sejamos mais escravos do pecado. Pois quem morreu está justificado do pecado.

Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele, sabendo que Cristo, ressuscitado dentre os mortos, não morre mais; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez por todas morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.

Romanos 6 ensina que, se estamos em Cristo, já morremos para o pecado. Isso está no passado. Devemos considerar esse fato como uma realidade consumada: estamos mortos para o pecado e vivos para Deus em Jesus.

Essa verdade, que antecede o capítulo 7, é totalmente incompatível com a interpretação segundo a qual os cristãos possuem uma natureza pecaminosa viva, ativa e dominante, e que a vida cristã será sempre uma luta constante.

Por causa desse entendimento equivocado, muitos cristãos nem sequer acreditam que seja possível viver uma vida cristã normal no Espírito. O próprio Paulo, que escreveu Romanos 7, também escreveu Gálatas:

Gálatas 2:19–21 (Almeida NAA)

Porque eu, por meio da própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus.

Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.

Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça vem por meio da lei, então Cristo morreu em vão.

Quando vivemos a partir dessa identificação com Cristo descrita em Gálatas 2, nós, por assim dizer, caímos fora do pecado e passamos a viver na justiça.

O capítulo seguinte de Romanos deixa ainda mais claro que “a carne” não significa “a condição humana” e que a descrição de Romanos 7 não representa a vida cristã normal. Se “a carne” significasse “a condição humana”, então Romanos 8:9 estaria dizendo que os cristãos não são humanos.

Romanos 8:9 (NAA) — Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.

O que significa “estar na carne” em Romanos 7?

Para interpretar esse texto corretamente, precisamos observar atentamente como Paulo usa a expressão “na carne” ao longo da Carta aos Romanos e o contraste constante que ele estabelece entre Lei e Espírito. O contexto de Romanos 7 é muito claro. Paulo usa o termo “na carne” para falar de viver sob a Lei.

Romanos 7:1–6 (NAA) — Por acaso vocês não sabem, irmãos (pois falo aos que conhecem a Lei), que a Lei domina o ser humano enquanto ele vive?

Porque a mulher casada está ligada pela Lei ao marido enquanto ele vive; mas, se o marido morrer, ela fica livre da lei do marido. De modo que, se ela se unir a outro homem enquanto o marido ainda vive, será chamada adúltera; mas, se o marido morrer, ela fica livre da Lei e não será adúltera se contrair novas núpcias.

Assim, meus irmãos, também vocês morreram para a Lei por meio do corpo de Cristo, para pertencerem a outro, a saber, àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que produzamos fruto para Deus.

Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas despertadas pela Lei atuavam em nossos membros, a fim de produzirem fruto para a morte. Mas agora fomos libertados da Lei, tendo morrido para aquilo a que estávamos sujeitos, para servirmos em novidade de Espírito e não na caducidade da letra.

Paulo já deixou claro que os cristãos morreram para o pecado e também para a Lei. Em Romanos 7, ele descreve o que significa viver debaixo da Lei. A expressão “vivíamos segundo a carne” está no passado. Essa antiga condição — estar na carne — contrasta com a nova — estar no Espírito. Paulo desenvolve esse mesmo tema extensamente na Carta aos Gálatas.

Romanos 8:1–8 (NAA) — Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, livrou você da lei do pecado e da morte.

Porque aquilo que a Lei não podia fazer, por causa da fraqueza da carne, Deus o fez, enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, assim, condenou o pecado na carne, a fim de que a exigência justa da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.

Porque os que vivem segundo a carne inclinam a mente para as coisas da carne; mas os que vivem segundo o Espírito, para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a do Espírito é vida e paz. Por isso, a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeita à Lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus.

“Estar na carne” significa ter uma natureza pecaminosa?


Algumas traduções da Bíblia optam por traduzir a expressão de Paulo “na carne” como “natureza pecaminosa”. Essa escolha de tradução, somada à falta de atenção ao contexto, levou muitos leitores a concluir que Paulo ensinava que os cristãos têm uma natureza interna inevitavelmente dominada pelo pecado.

O verdadeiro problema em Romanos 7 não é a existência do pecado, mas quem Paulo está descrevendo e em quais condições. Quando ele fala de viver “na carne” nesse capítulo, está descrevendo uma pessoa que vive debaixo da Lei, confiando na capacidade humana em vez do poder do Espírito.

A vida sob a Lei produz ciclos repetidos de pecado, frustração e condenação — exatamente aquilo que muitos acabam chamando de “natureza pecaminosa”.

Por isso, quando alguém pergunta: “A carne é o pecado?” ou “O que significa ‘natureza pecaminosa’ em Romanos?”, a resposta depende do contexto. A Bíblia ensina claramente que viver segundo a carne resulta em obras pecaminosas.

Mas Paulo não apresenta isso como a condição normal de quem está em Cristo. Pelo contrário, ele estabelece um contraste consistente entre viver na carne e viver no Espírito, especialmente em Romanos 6 a 8.

O próprio Paulo resolve essa tensão no capítulo seguinte, ao afirmar: “Vocês não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês” (Romanos 8:9).

Seja qual for o significado de “a carne” em outros contextos, ela não define a identidade do cristão. Os que estão em Cristo não estão mais debaixo da Lei e, portanto, não estão presos ao ciclo descrito em Romanos 7.

Essa distinção também ajuda a esclarecer outras passagens, como a expressão de Paulo sobre o “espinho na carne”, que a Escritura nunca identifica como doença e que deve ser interpretada de forma coerente com todo o ensino paulino.

Os diferentes sentidos de “carne” na Bíblia


A Bíblia usa o termo “carne” de diversas formas, e muita confusão surge quando essas distinções não são respeitadas.

Em alguns textos, carne se refere simplesmente ao corpo físico humano, que a Escritura apresenta como algo bom e dotado de propósito. Isso fica especialmente claro quando se fala do próprio Jesus, que veio em carne, revelando a proximidade de Deus, sua vontade de curar os enfermos e libertar os oprimidos.

Essa verdade tem implicações profundas para a vida e o ministério cristãos e está no centro de muitos testemunhos de cura e de histórias da obra de Deus. O Novo Testamento conecta o fato de Jesus ter vindo em carne à proximidade de Deus, à proclamação do evangelho, à capacitação para o ministério e à manifestação do poder de Deus.

Por essa razão, a Escritura trata a negação da encarnação como um erro grave, pois ela mina o próprio meio pelo qual Deus age no mundo e por meio do seu povo.

Em outros textos — especialmente nas cartas de Paulo — o termo carne não se refere ao corpo em si, mas à autossuficiência de quem vive debaixo da Lei, ou seja, à vida vivida à parte do poder do Espírito Santo. É nesse sentido que a carne é contrastada com o Espírito em Romanos, Gálatas e Filipenses.

Esses significados não devem ser misturados. O corpo físico não é pecaminoso, e a encarnação de Jesus é central para o evangelho. Ao mesmo tempo, a Escritura adverte contra tentar viver a vida cristã apenas com esforço humano, sem depender do poder de Deus.

Entender essas diferenças traz clareza não apenas ao capítulo 7 do Romanos, mas também à mensagem bíblica sobre cura, liberdade do pecado e vida no Espírito em todo o Novo Testamento.

A santidade do corpo: a base bíblica da pureza sexual


Uma área prática em que a confusão entre corpo e carne tem gerado consequências sérias é a maneira como a igreja entende a sexualidade. Como mais uma evidência de que o uso bíblico de “carne” no sentido de corpo físico é positivo, observe que o fundamento bíblico da pureza sexual é justamente a santidade do corpo. O corpo é o templo do Espírito Santo.

1 Coríntios 6:15, 18–20 (NAA) — Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei, por acaso, os membros de Cristo e os farei membros de uma prostituta? De modo nenhum! […]

Fujam da imoralidade sexual. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica imoralidade sexual peca contra o próprio corpo.

Ou será que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês, o qual vocês receberam de Deus? Vocês não são de si mesmos, porque foram comprados por preço. Portanto, glorifiquem a Deus no corpo de vocês.

A impureza sexual tem raiz na dicotomia gnóstica, segundo a qual o espiritual é bom, enquanto o físico é mau. Historicamente, essa visão levou a duas conclusões extremas.

Ou se dizia: “Todo sexo é mau, até mesmo no casamento”, ou então: “Meu corpo e meu espírito são separados, então o que faço com o corpo não afeta o espírito”. Ambas as conclusões levam a problemas relacionados ao pecado sexual.

Essas duas visões entram em choque com a verdade do evangelho da encarnação de Jesus. Por isso, muitas lutas com o pecado sexual são reforçadas por confusão teológica — especialmente quando os cristãos não distinguem entre os usos positivos e negativos do termo “carne” na Bíblia.

Quando o corpo é visto como inerentemente pecaminoso, ou quando as ações físicas são desconectadas da realidade espiritual, o poder libertador do evangelho é silenciosamente enfraquecido.

O que o princípio da primeira menção revela sobre o termo “carne”


Algumas pessoas falam sobre o “princípio da primeira menção” na interpretação bíblica. A ideia é observar a primeira vez que uma palavra ou expressão aparece na Bíblia para obter pistas sobre o seu significado. A primeira ocorrência da expressão “na carne” na Bíblia é em Gênesis 17.

Gênesis 17:9–11 (NAA) — Deus disse ainda a Abraão: “Quanto a você, guarde a minha aliança, você e a sua descendência, nas suas gerações. Esta é a minha aliança, que vocês devem guardar, entre mim e vocês e a sua descendência: todo homem entre vocês será circuncidado. Vocês devem circuncidar a carne do prepúcio, e isso será por sinal da aliança entre mim e vocês.”

[…] Abraão tinha noventa e nove anos quando foi circuncidado na carne do seu prepúcio.

Isso se conecta diretamente a um dos grandes temas do Novo Testamento. O termo “carne” está ligado à aliança natural da circuncisão, que as cartas aos Romanos e aos Gálatas contrastam com a circuncisão espiritual da Nova Aliança.

Jesus confrontou os fariseus, que confiavam na carne — ou seja, no fato de serem circuncidados e descendentes naturais de Abraão. Quando se ofenderam com o ensino de Jesus de que ele era o verdadeiro pão que desceu do céu, ele disse: “O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita. As palavras que eu lhes tenho dito são espírito e são vida” (João 6:63).

Eles pensavam em termos naturais (a carne), mas Jesus falava de realidades espirituais. Vemos o mesmo padrão em João 3.

João 3:3–8 (NAA) — Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade lhe digo: se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus.” Nicodemos perguntou: “Como pode um homem nascer sendo velho? Pode, por acaso, voltar ao ventre materno e nascer?”

Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade lhe digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito.

Não fique admirado por eu lhe dizer: ‘É necessário que vocês nasçam de novo.’ O vento sopra onde quer, você escuta o seu som, mas não sabe de onde vem nem para onde vai. Assim é todo o que é nascido do Espírito.”

Os judeus confiavam na carne — isto é, em serem descendentes naturais de Abraão e circuncidados —, mas Jesus declarou que a carne para nada aproveita e que era necessário nascer do Espírito. O verdadeiro maná do céu era espiritual.

Nascer do alto era essencial, não apenas nascer na carne como descendente de Abraão. A circuncisão que importa para Deus é a do Espírito, não a da carne. Os verdadeiros filhos de Abraão são os seus descendentes espirituais.

Se você nasceu de novo, nasceu do Espírito e a carne já não define quem você é. Você morreu para a carne e agora vive uma nova vida no Espírito.

O contraste de Paulo entre carne e Espírito


João 8:15, 39–41, 44 (NAA) — Vocês julgam segundo a carne; eu não julgo ninguém. […]

Eles responderam: “Abraão é nosso pai.” Jesus disse: “Se vocês fossem filhos de Abraão, fariam as obras de Abraão. Mas agora procuram matar a mim, um homem que lhes disse a verdade que ouviu de Deus. Abraão não fez isso. Vocês fazem as obras do pai de vocês.” […]

Vocês são do pai de vocês, o diabo, e querem satisfazer os desejos dele. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade.

Gloriar-se na circuncisão e em ser descendente natural de Abraão era gloriar-se na carne. Esse é exatamente o tema que a carta aos Romanos desenvolve.

Romanos 2:25–29 (NAA) — Porque a circuncisão tem valor se você pratica a Lei; mas, se é transgressor da Lei, a sua circuncisão se torna incircuncisão. Se, pois, o incircunciso guarda os preceitos da Lei, não será a sua incircuncisão considerada como circuncisão?

E não julgará o incircunciso por natureza, cumpridor da Lei, você que, apesar da letra e da circuncisão, é transgressor da Lei? Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é exterior, na carne.

Judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão é a do coração, no Espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede de homens, mas de Deus.

Romanos 4:1–5 (NAA) — Que diremos, então, que Abraão, nosso pai segundo a carne, conseguiu? Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus.

Pois o que diz a Escritura? “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça.” Ora, para quem trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, para quem não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída para justiça.

Romanos 2 deixa claro que o que torna alguém realmente judeu e participante da aliança com Deus não é a carne nem os elementos naturais, mas a circuncisão espiritual. Romanos 4 afirma que Abraão não foi justificado pela carne — isto é, por obras próprias ou pela circuncisão física —, mas pela fé. Diversos outros textos do Novo Testamento mostram que a expressão “na carne” está associada a estar debaixo da Lei.

Vida no Espírito x vida na carne


A Lei é boa, mas somos incapazes de cumpri-la por nossas próprias forças. Viver debaixo da Lei não é viver pelo poder do Espírito, e é necessário morrer para a Lei para viver pelo poder do Espírito. (Romanos 7:1–6) Os que estão em Cristo não vivem sem lei, mas vivem segundo outra lei — uma lei que capacita, em vez de condenar.

Paulo não descreve a vida cristã normal em Romanos 7. Ele descreve a vida baseada apenas na capacidade humana, na confiança em recursos naturais e na tentativa de estabelecer uma justiça própria debaixo da Lei.

Aqueles que vivem assim estão espiritualmente mortos, cegos e surdos. Não têm olhos espirituais para ver nem ouvidos espirituais para ouvir.

O corpo em si é santo, não pecaminoso. A ideia de que “sempre vamos pecar porque somos humanos” vem da heresia gnóstica, não do evangelho.

Nunca fomos chamados a viver apenas pelo natural. Nunca fomos chamados a viver separados da comunhão com o Espírito Santo. Os que foram salvos estão no segundo Adão, Jesus Cristo, para reinar em vida! Se o Espírito de Cristo habita em você, você não está na carne!

Aqueles que tentam viver o cristianismo pela força humana estão andando na carne. Essa é a diferença clara entre andar na carne e andar no Espírito: um caminho leva à impotência espiritual, o outro conduz à vida e à paz.

Os que andam na carne jamais conseguem agradar a Deus, e a vida se torna uma luta constante. Mas os que recebem o Espírito Santo e a promessa do Pai pela fé podem viver uma vida vitoriosa no Espírito!

Quem confia na própria justiça vive na carne. Quem recebe a justiça de Cristo pela fé também recebe o poder do Espírito!

Em outras palavras: quem se aproxima de Deus com ousadia por meio de Jesus e recebe todas as promessas e bênçãos em Cristo está vivendo no Espírito. Quem tenta alcançar promessa e bênção por qualquer outro caminho que não seja Jesus está vivendo na carne.

Grande parte da igreja hoje vive na carne. Muitos acreditam que o poder do Espírito Santo é opcional, como se fosse possível “praticar” o cristianismo apenas com esforço humano. Muitos não creem que Jesus seja suficiente e, por isso, tentam alcançar a bênção de Deus por meio de obras, dízimos, ofertas e de tantas outras coisas.

Quem tem a mente voltada para a carne foca nas coisas exteriores. Quem tem a mente voltada para o Espírito vive em comunhão interior com o Espírito Santo. Essas pessoas se gloriam em Cristo Jesus e não depositam nenhuma confiança na carne. Andar no Espírito produz poder; andar na carne resulta em impotência.

Se a sua vida cristã tem sido uma luta constante, talvez você tenha aprendido tradições religiosas humanas que o mantêm andando na carne.

O que significa andar no Espírito hoje


Permita que a Palavra de Deus confronte essas tradições e peça ao Espírito Santo que abra os olhos do seu coração ao evangelho. Você pode andar no Espírito, e não na carne, pelo poder do Espírito Santo! Você pode viver uma vida de vitória após vitória, de glória após glória, em Jesus! É possível viver com a consciência limpa.

Estou dizendo que você nunca mais vai falhar? Não. O que estou dizendo é que a sua experiência normal pode ser uma comunhão contínua com Deus, rios de água viva fluindo do seu interior e o seu rosto refletindo a glória de Deus. E, se você cair, pode se levantar rapidamente e vencer pelo poder do Espírito Santo.

Romanos 7 não descreve a vida cristã normal. É um alerta sobre o que acontece quando as pessoas tentam se relacionar com Deus pela carne — por meio da Lei, do esforço próprio e da capacidade natural — em vez de pelo Espírito.

O evangelho anuncia algo muito melhor. Em Cristo, você morreu para o pecado, morreu para a Lei e foi ressuscitado para uma nova vida, capacitada pelo Espírito Santo. Você não é definido pela carne, não está preso a ciclos intermináveis de fracasso e não foi condenado a viver apenas pela força humana.

Se o Espírito de Cristo habita em você, você não está na carne, mas no Espírito. Vitória sobre o pecado, comunhão com Deus e uma consciência limpa não são ideais distantes. Eles fazem parte da vida cristã normal.

À medida que você volta a mente para o Espírito e confia plenamente no que Jesus já realizou, andar no Espírito deixa de ser um esforço e passa a ser participação. Não é um fardo, mas vida — a vida que Deus planejou desde o início.

Perguntas frequentes sobre a carne na Bíblia?

“A carne” significa natureza pecaminosa na Bíblia?

Em algumas traduções, “a carne” aparece como “natureza pecaminosa”, mas o significado depende do contexto. Em Romanos 7, Paulo não está definindo a condição permanente do cristão, mas sim descrevendo a vida de quem vive debaixo da Lei e confia na capacidade humana. A Escritura contrasta repetidamente a vida na carne com a vida no Espírito, especialmente em Romanos 6 a 8.

Romanos 7 descreve a vida cristã normal?

Não. Romanos 7 descreve a luta de alguém que vive debaixo da Lei, não a experiência normal de quem está em Cristo. Paulo deixa isso claro ao afirmar, em Romanos 8:9, que os cristãos “não estão na carne, mas no Espírito”, pois o Espírito de Deus habita neles.

Se os cristãos não estão “na carne”, por que ainda lutam contra o pecado?

Cristãos ainda podem enfrentar tentações e falhas, mas a Escritura não apresenta a derrota contínua como inevitável. A luta geralmente surge quando se confia no esforço humano, em vez do poder do Espírito Santo. A vitória flui da fé no que Cristo já realizou, não da tentativa de cumprir a Lei.

O que significa andar no Espírito em vez de andar na carne?

Andar no Espírito é viver em dependência do Espírito Santo, e não do esforço próprio nem da observância da Lei. Significa confiar na obra consumada de Cristo, manter a mente nas realidades espirituais e permitir que o poder de Deus opere em nós. A Bíblia contrasta essa vida de liberdade e paz com a frustração que acompanha quem anda na carne.

2 comentários sobre “O Que Significa “a Carne” Na Bíblia?
  1. Wilma disse:

    Estudo Maravilhoso e libertador. Benção!!👏🤩

3 Pings/Trackbacks para "O Que Significa “a Carne” Na Bíblia?"
  1. […] Eu escrevi anteriormente um artigo explicando que as escrituras muitas vezes usam o termo “a carne…Paulo disse que a lei produzia todo tipo de desejo pecaminoso nele. Uma suposição incorreta comum é que as escrituras usam “a carne” para falar sobre a condição de sermos propensos ao fracasso porque estamos em corpos humanos. O próprio Paulo disse em Romanos 8:6 que não estamos na carne se pertencemos a Cristo. Esta declaração desafia todo cristão que pensa que “a carne” se refere a um estado pecaminoso que faz com que os cristãos continuem falhando. Obviamente, Paulo não estava dizendo que não estamos mais em nossos corpos humanos! […]

  2. […] presença de Deus. Muitas vezes não é falta de acesso ao céu, mas uma mentalidade ainda moldada pelo que a Bíblia chama de carne, que nos impede de viver plenamente na realidade espiritual que Cristo já […]

  3. […] Infelizmente, para muitos de nós, nossa formação religiosa nos ensinou a nos considerarmos vivos para o pecado e mortos para a justiça! Há muito ensino que leva os cristãos a pensar como se ainda fossem pecadores e que sempre vão falhar, criando uma visão distorcida da santificação cristã, muitas vezes baseada em um entendimento equivocado do que a Bíblia chama de “a carne”. […]

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