
Recentemente, tive uma conversa sobre o modelo bíblico de funcionamento do corpo de Cristo. O homem com quem eu conversava simplesmente não conseguia compreender como poderia haver estrutura e liderança sem hierarquia. Também já conversei com outras pessoas que simplesmente não acreditavam que isso fosse possível.
Este blog fala sobre o acesso presente ao céu e sobre entrar em uma nova normalidade em Cristo. A liderança cristã não hierárquica é uma das bases da visão de mundo sobre a qual escrevo. Este artigo examina como Jesus proibiu explicitamente seus discípulos de exercerem autoridade uns sobre os outros, e como a liderança cristã bíblica de fato funciona sem uma hierarquia de autoridade entre o cristão individual e Deus. Também vamos extrair muitas percepções do livro A Estrela-do-Mar e a Aranha.
Este artigo faz parte do meu hub mais amplo sobre eclesiologia bíblica, onde examino o padrão do Novo Testamento para a vida da igreja, liderança, comunhão, submissão e participação de todos os membros. Ele pode conter links de afiliado. Como afiliado da Amazon, ganho com compras qualificadas.
Liderança sem hierarquia: um valor essencial para o corpo de Cristo andar no poder de Deus
Nesta mesma semana, recebi o testemunho de um homem que foi curado de diabetes dois anos atrás, quando orei por ele. Eu não soube disso até agora, porque diabetes não é uma condição que pode ser facilmente testada no momento. Mas a parte mais encorajadora foi que ele e a esposa têm compartilhado o testemunho, orado por pessoas e visto Jesus curar outros nos últimos dois anos. Agora as pessoas os procuram pedindo oração.
Isso é o corpo de Cristo funcionando por multiplicação. Não é uma plateia religiosa assistindo a uma classe ministerial se apresentar. Não é uma hierarquia dando permissão de cima para baixo. É Cristo, o Cabeça, operando por meio dos seus membros pelo Espírito Santo.
Leitores antigos sabem com que frequência compartilhamos testemunhos extraordinários assim. Só nos últimos meses, compartilhamos testemunhos de vários olhos cegos enxergando, câncer em estágio avançado sendo curado, uma mulher se levantando da cadeira de rodas sem dor, várias salvações e várias pessoas sendo libertas de demônios. Tudo longe dos holofotes.
O evangelho está se espalhando como fogo, e milhares de pessoas estão sendo tocadas por Jesus, uma de cada vez, não em grandes reuniões nem por meio de programas religiosos, mas por influência e relacionamentos.
Você pode ver Deus fazer mais por meio de você na vida cotidiana do que aquilo que acontece em muitos programas religiosos que restringem a participação.
Posso dizer de forma concreta que eu não estaria vivendo esta vida sobre a qual escrevo se continuasse preso ao paradigma hierárquico de liderança da igreja e autoridade sobre outros cristãos. Isso não foi aprovado por homens. Não teria acontecido se eu precisasse da “cobertura” ou do respaldo de hierarquias ou instituições humanas para obedecer a Cristo.
Muitos outros cristãos reconheceram que Deus estava me chamando para missões quando eu era adolescente, mas o sistema religioso nunca reconheceu esse chamado nem me disse: “Você está pronto.” E fico feliz por não ter esperado, porque eu ainda estaria esperando.
Muitos dos maiores moveres de Deus na história nunca teriam acontecido se os cristãos tivessem se submetido a uma hierarquia de autoridade eclesiológica colocada entre eles e Cristo.
É por isso que este artigo importa. Jesus não disse apenas aos seus discípulos que fossem humildes enquanto exerciam autoridade uns sobre os outros. Ele disse que o modelo de autoridade das nações não deve existir entre eles: “Não será assim entre vocês.”
Toda organização precisa de hierarquia?
Muitas pessoas presumem, de forma equivocada, que acabar com a hierarquia é acabar com a ordem e com a liderança, tornando impossível a sobrevivência. Em uma conversa recente, alguém que não conseguia imaginar como a igreja poderia funcionar conforme Jesus ensinou afirmou: “Todo sistema tem uma hierarquia.”
A Estrela-do-Mar e a Aranha prova que essa afirmação está errada. O livro compara uma aranha, que tem um sistema nervoso centralizado, com uma estrela-do-mar, que não possui um sistema nervoso hierárquico ou centralizado. Se você corta a perna de uma aranha, na melhor das hipóteses você a incapacita. Se atinge a cabeça, você a mata.
Mas, se você corta um membro de uma estrela-do-mar, ela se regenera. A parte cortada pode até se tornar uma nova estrela-do-mar.
O livro estuda o que chama de “organizações sem líderes”. Mas elas não são realmente “sem líderes”; antes, são exemplos de liderança sem hierarquia ou autoridade sobre os outros.
A Estrela-do-Mar e a Aranha apresenta vários exemplos de sistemas não hierárquicos na biologia, na sociologia, na história e nos negócios. O livro contém paralelos profundos com o ensino de Jesus sobre liderança cristã e mostra que sistemas não hierárquicos podem ser mais resilientes e adaptáveis, mais difíceis de atacar e mais rápidos para se multiplicar do que sistemas hierárquicos centralizados.
Então, antes de falarmos sobre tradição da igreja, modelos de liderança, palavras gregas ou até mesmo sobre A Estrela-do-Mar e a Aranha, precisamos começar onde esta questão deve começar: com as palavras do próprio Jesus.
Jesus não estava apenas alertando contra uma liderança dura
Muitos cristãos leem as palavras de Jesus como se ele tivesse dito: “Quando vocês exercerem autoridade, façam isso com gentileza.” Mas não é isso que a passagem diz. Jesus não apenas repreendeu a opressão dentro de uma hierarquia. Ele identificou a maneira como os reinos terrenos funcionam e, então, disse aos seus discípulos que esse modelo não deve existir entre eles.
O contexto de Lucas 22 é muito importante. Os discípulos estavam discutindo sobre qual deles era o maior. Jesus respondeu contrastando dois modelos completamente diferentes de liderança e ordem.
Lucas 22:24–27 (NAA) Houve também entre eles uma discussão sobre qual deles parecia ser o maior. Mas Jesus lhes disse:
— Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados de benfeitores. Mas vocês não são assim; pelo contrário, o maior entre vocês seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve.
Pois qual é maior: aquele que está à mesa ou aquele que serve? Não é verdade que é aquele que está à mesa? Pois, no meio de vocês, eu sou como quem serve.
Jesus não disse: “Os reis dos gentios são duros demais, mas vocês devem exercer autoridade de forma mais bondosa.” Ele não disse: “Os gentios têm uma hierarquia ruim, mas vocês devem criar uma hierarquia boa.” Ele disse que os reis dos gentios exercem domínio e autoridade sobre os outros e, então, declarou: “Mas vocês não são assim.”
Essa frase é o fundamento deste artigo. Jesus não estava batizando a estrutura de autoridade das nações e dizendo aos seus discípulos que a usassem com melhores maneiras. Ele literalmente proibiu esse modelo entre eles.
Muitas vezes fomos treinados a ler as palavras de Jesus por meio da própria hierarquia que ele estava rejeitando. Por causa disso, muitas pessoas presumem que ele só poderia estar falando de liderança abusiva. Mas a passagem não diz isso. A passagem nomeia a própria estrutura: reis, domínio, autoridade sobre os outros, grandes, benfeitores e posição. Jesus contrasta isso com serviço, humildade e seu próprio exemplo: “No meio de vocês, eu sou como quem serve.”
A interpretação comum diz: “Jesus permite autoridade sobre os outros, desde que seja com coração de servo.” Mas as palavras reais de Jesus são muito mais fortes. Ele diz que exercer domínio e autoridade sobre os outros, como fazem as nações, não é a maneira como seus discípulos se relacionam uns com os outros.
Se Jesus tivesse apenas corrigido a atitude dos líderes, então a igreja ainda poderia funcionar como um governo terreno, desde que seus governantes fossem humildes. Mas, se Jesus proibiu o próprio modelo de autoridade, então grande parte daquilo que os cristãos chamam de “liderança da igreja” foi construída sobre o próprio padrão que Jesus disse que não deve existir entre nós.
“Os reis dos gentios dominam”: o que Jesus proibiu
Em Lucas 22, Jesus identifica o modelo das nações. Os reis dos gentios dominam sobre eles. Aqueles que exercem autoridade sobre eles são chamados de benfeitores. Essa última frase importa, porque governantes terrenos muitas vezes justificam sua autoridade alegando ajudar as pessoas sobre as quais governam. Eles nem sempre são chamados de tiranos. Podem ser chamados de benfeitores.
Essa é uma das razões pelas quais a hierarquia pode ser tão enganosa. Ela nem sempre se apresenta como opressão. Muitas vezes se apresenta como proteção, ordem, cobertura, sabedoria, liderança e serviço. Mas Jesus não expõe apenas motivações ruins. Todo o modelo em que uma pessoa, ou uma classe de pessoas, exerce domínio e autoridade sobre outras não é a maneira como a igreja deve funcionar.
Jesus disse: “Mas vocês não são assim.”
As palavras são simples, mas devastadoras para o paradigma hierárquico. Jesus não dá permissão aos seus discípulos para criarem uma versão cristã do governo dos gentios. Ele não diz: “Usem essa estrutura para o bem.” Ele diz que isso não deve estar entre eles. Mateus 20:25–28 e Marcos 10:42–45 registram o mesmo ensino.
Isso não significa que a igreja não tenha líderes. Não significa que não há ordem, correção, ensino, maturidade, responsabilidade, administração ou liderança. Significa que a natureza da liderança no corpo de Cristo é completamente diferente das estruturas de autoridade dos reinos terrenos.
A igreja tem um só Cabeça, que é somente Cristo. Entre os membros do seu corpo, a relação não é uma hierarquia de autoridade, mas uma irmandade debaixo de um só Senhor.
Jesus proíbe absolutamente o domínio ao estilo dos gentios entre seus discípulos. O Novo Testamento realmente tem liderança, ordem, autoridade, submissão, correção e missão. A chave é que essas coisas funcionam debaixo de Cristo como Cabeça e por meio do corpo pelo Espírito Santo, não por meio de um membro governando sobre outro.
O próximo passo é observar cuidadosamente as palavras gregas por trás do ensino de Jesus, porque as palavras que ele usou tornam esse ponto ainda mais forte.
As palavras gregas por trás de “Não será assim entre vocês”
As palavras gregas mais importantes nessas passagens incluem katakyrieuō, archō, archōn, exousia e katexousiazō. Juntas, essas palavras mostram que Jesus estava falando sobre governo, senhorio e autoridade sobre outras pessoas. Ele não estava apenas corrigindo o tom, mas proibindo um modelo.
Katakyrieuō: exercer domínio sobre
A palavra traduzida como “exercer domínio sobre” em Mateus 20 e Marcos 10 é katakyrieuō. Essa palavra não significa “abusar da autoridade” ou “ser autoritário”, mas simplesmente “exercer senhorio ou domínio sobre”.
De acordo com a entrada do dicionário grego de Bill Mounce para katakyrieuō, essa palavra aparece quatro vezes no Novo Testamento: Mateus 20:25, Marcos 10:42, Atos 19:16 e 1 Pedro 5:3.
Esse padrão de uso importa. Três das quatro ocorrências de katakyrieuō no Novo Testamento aparecem no contexto de proibir líderes cristãos de exercerem domínio sobre outros cristãos. Somente Jesus é Senhor na igreja.
1 Pedro 5:2–3 (NAA) pastoreiem o rebanho de Deus que há entre vocês, não por obrigação, mas espontaneamente, como Deus quer; não por ganância, mas de boa vontade;
não como dominadores dos que foram confiados a vocês, mas sendo exemplos para o rebanho.
Isso é extremamente importante. Jesus proíbe katakyrieuō em Mateus 20 e Marcos 10, e Pedro aplica o mesmo princípio diretamente àqueles que cuidam do rebanho. A liderança cristã bíblica funciona por influência, não por autoridade hierárquica.
Pedro confirmou a ordem de Jesus. Supervisão bíblica é cuidar do povo de Deus, não controlá-lo. Um estudo mais profundo revela que “supervisores” ou “bispos” estavam intimamente ligados a visitar pessoas em suas casas para cuidar delas.
Jesus não proibiu apenas um senhorio cruel enquanto permitia um senhorio gentil. Pedro não disse aos presbíteros que exercessem domínio com mais bondade. O Novo Testamento proíbe o senhorio de alguns sobre outros entre o povo de Deus.
Archō e Archōn: a linguagem de governante pertence a Cristo, não aos líderes da igreja
Outra família importante de palavras está ligada a archō, que significa governar, e archōn, que significa governante, príncipe, magistrado ou alguém que possui autoridade de governo. Essa é linguagem de governante. A Bíblia a usa para descrever autoridade civil, líderes judeus, magistrados, principados, potestades e o próprio Cristo. Um resumo básico pode ser visto na entrada do Bible Hub para archōn.
Jesus usa essa palavra para descrever como não deve ser entre nós. Em Mateus 20:25, os “governadores” dos gentios são archontes, governantes. Jesus está nomeando a classe governante das nações e, então, dizendo que esse modelo não deve existir entre os seus discípulos.
Paulo cita Isaías para descrever o governo de Cristo sobre as nações:
Romanos 15:12 (NAA) E também Isaías diz: “A raiz de Jessé aparecerá, aquele que se levantará para governar os gentios; nele os gentios esperarão.”
Há apenas um Archōn na igreja, e ele é Jesus. Qualquer líder cristão que tente agir como um archōn sobre outros está usurpando ilegitimamente o papel de Cristo.
Exousia: autoridade de Cristo não é autoridade sobre cristãos
A palavra exousia significa autoridade. O Novo Testamento ensina claramente sobre autoridade. Jesus falava com autoridade. Jesus tem autoridade. Jesus dá autoridade. A questão não é se a autoridade existe, mas que tipo de autoridade Cristo dá e como essa autoridade funciona no seu corpo.
Jesus falava com autoridade.
Mateus 7:28–29 (NAA) Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, as multidões estavam maravilhadas com a sua doutrina,
porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.
Sua autoridade vinha do Pai.
João 12:49–50 (NAA) Porque eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, esse me deu ordem quanto ao que dizer e o que anunciar.
E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, as coisas que eu digo, eu as digo exatamente como o Pai me falou.
Jesus também deu autoridade aos seus discípulos.
Lucas 9:1–2 (NAA) Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curarem doenças.
Também os enviou a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos.
Ele deu autoridade ligada à obra redentora do Reino: pregar, curar, expulsar demônios, perdoar em seu nome, fazer discípulos e dar testemunho da verdade.
Mas é aqui que muitos cristãos confundem duas coisas diferentes. Cristo deu autoridade para pregar sua palavra, transmitir seus mandamentos e realizar suas obras. Ainda assim, ele proibiu seus discípulos de exercerem autoridade uns sobre os outros.
As palavras de Jesus nas Escrituras não foram: “Não abusem da autoridade uns sobre os outros.” Ele disse, literalmente, que “exercer autoridade uns sobre os outros” não será assim entre vocês.
A autoridade de Cristo não é propriedade privada de uma casta ministerial. Cristo deu o seu Espírito ao corpo. Os dons do Espírito são distribuídos entre os membros. A autoridade para falar a verdade e realizar a obra redentora de Cristo pertence ao corpo, porque Cristo age por meio do seu corpo pelo Espírito Santo.
Isso não significa que todos os membros tenham o mesmo dom, maturidade, responsabilidade ou função. Mas significa que a autoridade de Cristo não está trancada em um cargo no topo de uma hierarquia. Cristo continua sendo o Cabeça, e sua autoridade é expressa por meio dos membros à medida que eles lhe obedecem.
Vamos dar um exemplo claro que corresponde a muitas situações atuais. Pense em um “pastor” ou “apóstolo” respeitado que fala fora do espírito de Cristo ou contra as Escrituras. Ao mesmo tempo, um jovem que entregou a vida a Jesus na semana passada fala segundo o Espírito de Cristo e em concordância com as Escrituras.
O novo convertido tem autoridade para corrigir e repreender esse pastor ou apóstolo em espírito de mansidão. Ele está andando na autoridade de Cristo, e o líder não. A autoridade não vem de uma posição hierárquica, mas da concordância com Cristo.
Todo cristão tem autoridade para curar enfermos, expulsar demônios, pregar o evangelho, batizar novos convertidos e administrar a Ceia do Senhor, porque essas são ordens de Jesus para todos os seus discípulos. Qualquer pessoa que tente impedir outros cristãos de fazerem essas coisas está em rebelião e se opondo à autoridade do próprio Cristo.
Na igreja bíblica, Cristo, o Cabeça, está no comando, e sua autoridade é expressa por meio dos membros pelo Espírito Santo. É por isso que o paradigma hierárquico é tão prejudicial: ele toma a autoridade que pertence a Cristo e ao seu corpo e a concentra dentro de uma estrutura humana. Ele ensina cristãos comuns a esperarem permissão de homens antes de obedecerem a Cristo. Em muitos casos, ele chega a exaltar a palavra desse líder acima das palavras do próprio Cristo.
Jesus não deu autoridade a poucos para que governassem muitos. Ele deu autoridade a todos os discípulos para realizarem sua obra no mundo.
O viés hierárquico influenciou a forma como muitos cristãos leem essas passagens
Uma razão pela qual muitos cristãos têm dificuldade para enxergar isso com clareza é que séculos de tradição eclesiástica hierárquica moldaram a forma como as pessoas leem as passagens do Novo Testamento sobre liderança. Em alguns casos, essa tradição também influenciou a maneira como certas palavras são traduzidas para o inglês.
Muitas passagens que parecem autoritárias ou hierárquicas em inglês não ensinam uma hierarquia de autoridade quando lidas cuidadosamente no contexto e no grego. Elas falam de estima, persuasão, exemplo, cuidado, trabalho, serviço, submissão à verdade e influência madura. Elas não anulam a ordem direta de Jesus de que o modelo gentílico de domínio e autoridade sobre outros não deve existir entre os seus discípulos.
Se lermos o Novo Testamento pelas lentes da tradição religiosa e de algumas traduções em inglês, pode parecer que os apóstolos estão contradizendo Jesus. Mas um mergulho no grego original mostra que, na verdade, os apóstolos concordavam com Jesus. Você pode ver alguns exemplos disso em nosso artigo sobre o viés hierárquico na tradução das Escrituras.
Para um estudo mais profundo sobre o assunto, veja meu livro I Am Persuaded: Christian Leadership as Taught by Jesus.
1 Samuel 8 e a tentação de ser como as nações
Essa tentação de imitar as nações não começou no Novo Testamento. Mesmo debaixo da Antiga Aliança, Deus não queria que o seu povo buscasse um rei para ser como as outras nações.
Em 1 Samuel 8, Israel pediu um rei. Eles queriam um governo humano visível como as nações ao seu redor. Deus disse a Samuel que o povo não havia rejeitado apenas Samuel. Eles haviam rejeitado Deus, para que ele não reinasse sobre eles.
1 Samuel 8:4–7 (NAA) Então todos os anciãos de Israel se reuniram, foram falar com Samuel, em Ramá,
e lhe disseram: — Veja! Você já está velho, e os seus filhos não andam nos seus caminhos. Agora constitua sobre nós um rei, para que nos governe, como o têm todas as nações.
Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: “Dê-nos um rei, para que nos governe.” Então Samuel orou ao Senhor.
E o Senhor disse a Samuel: — Atenda à voz do povo em tudo o que lhe dizem, pois não foi a você que rejeitaram, mas a mim, para que eu não reine sobre eles.
O povo de Deus queria ser como as nações, e Deus disse que esse desejo era uma rejeição ao seu próprio governo. Muitos cristãos hoje têm rejeitado o senhorio e a liderança de Cristo como Cabeça, e também o reinado, ou governo, de Deus, ao estabelecerem outros “cabeças”, “senhores” e “reis” para governar sobre eles.
“Vocês todos são irmãos”: a relação horizontal que Jesus ordenou
Lucas 22, Mateus 20 e Marcos 10 não são os únicos lugares em que Jesus ensinou isso. Mateus 23 apresenta a mesma verdade por outro ângulo. Jesus não proibiu apenas a autoridade dura. Ele proibiu a estrutura de status que coloca um discípulo acima de outro como superior espiritual.
A Good News Bible deixa muito clara a força das palavras de Jesus:
Mateus 23:8–12 (NAA) Vocês, porém, não serão chamados de “Mestre”, porque um só é o Mestre de vocês, e vocês todos são irmãos.
A ninguém sobre a terra chamem de “pai”, porque só um é o Pai de vocês, aquele que está nos céus.
Nem queiram ser chamados de “guias”, porque um só é o Guia de vocês, o Cristo.
Mas o maior entre vocês será o servo de vocês.
Quem se exaltar será humilhado; e quem se humilhar será exaltado.
Essa passagem é devastadora para o paradigma hierárquico. Jesus não disse: “Usem esses títulos com humildade.” Ele não disse: “Certifiquem-se de que seus títulos espirituais não subam à cabeça.” Ele disse para não serem chamados de Mestre, Pai ou Guia no sentido de status que ele estava abordando, porque os discípulos têm um só Mestre, um só Pai e um só Guia: o Cristo.
Então ele apresenta a razão: “Vocês todos são irmãos.”
“Vocês todos são irmãos” é a eclesiologia de Jesus. É assim que seus discípulos devem entender seu relacionamento uns com os outros. Eles não são organizados como governantes espirituais e súditos espirituais, uma classe governante e uma classe ouvinte, ou muitos cabeças sobre muitos membros passivos. Eles são irmãos debaixo de um só Mestre, um só Pai e um só Guia.
A formulação da Good News Bible, “vocês todos são iguais”, capta a força da passagem. Algumas outras traduções dizem: “Vocês todos são alunos.” Jesus não está negando diferenças de maturidade, dons, experiência, responsabilidade ou fidelidade. Mas ele está negando o tipo de hierarquia espiritual que dá a um discípulo uma posição de status sobre outro como Mestre, Pai ou Guia.
O paradigma em que todos somos alunos e todos estamos aprendendo cria grande prestação de contas. A ideia de que alguns no corpo de Cristo são mestres no sentido de que já não são alunos destrói a prestação de contas bíblica e leva a igreja ao erro.
Alguns presumem, de forma equivocada, que a liderança não hierárquica na igreja destruirá a prestação de contas. Pelo contrário: o modelo de um homem no topo destrói a prestação de contas, e poderíamos dar muitos exemplos práticos de como isso tem acontecido na igreja.
Em uma conversa recente, na qual descrevi alguns dos movimentos de plantação de igrejas que mais crescem no mundo, alguém levantou esta objeção: “Você faz parecer que eles destruíram e nivelaram a estrutura eclesiológica.”
Mas a estrutura bíblica que Jesus descreve quando diz “vocês todos são irmãos” e “vocês todos são alunos” não é justamente horizontal?
Verticalmente, existe a autoridade de Cristo. Horizontalmente, os discípulos são irmãos. Veja o livreto ou audiolivro Are You My Spiritual Father? para um estudo detalhado sobre por que rejeitamos o paradigma de “pai espiritual e filho espiritual” para os relacionamentos cristãos e o discipulado.
A igreja não é sem liderança — mas somente Cristo é o Cabeça
Neste ponto, muitas pessoas entendem mal o argumento. Elas ouvem “não há hierarquia entre os membros” e pensam que isso significa “não há liderança” ou “não há estrutura”.
Nunca defendemos que não há liderança ou estrutura na igreja, mas que se trata de outro tipo de liderança e estrutura. Ela não é hierárquica.
Como liderança e estrutura funcionam sem hierarquia
Algumas pessoas têm dificuldade de imaginar como pode existir liderança sem autoridade e hierarquia. Por isso, levantam a objeção de que estamos acabando com a liderança da igreja.
Isso me lembra como, no livro A Estrela-do-Mar e a Aranha, os cientistas tiveram dificuldade para imaginar que o cérebro pudesse armazenar memórias sem algum tipo de hierarquia ou local centralizado. Mas descobriram que estavam errados. Da mesma forma, investidores franceses tiveram dificuldade para entender o que era a internet em 1995 e como ela poderia existir sem uma hierarquia. Eles insistiam em saber: “Quem é o presidente da internet?”
É claro que a igreja tem líderes, mas as Escrituras mostram esses líderes conduzindo por influência e serviço. Eles carregam autoridade, mas essa autoridade se origina em sua concordância com Cristo e se limita a ela. Ela não vem de uma posição hierárquica sobre os outros.
Muitos cristãos hoje falam como se seus líderes fossem “cabeças” e como se o corpo de Cristo tivesse muitos cabeças. Isso é um erro grave. Há somente um cabeça da igreja, que é Cristo!
Colossenses 1:18 (NAA) Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter a primazia em todas as coisas.
Efésios 1:22–23 (NAA) E pôs todas as coisas debaixo dos pés de Cristo e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja,
a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas.
Cristo não é apenas um Cabeça simbólico. Ele é o Cabeça vivo do corpo. Ele é a fonte de vida, autoridade, direção, sustento, sabedoria e unidade. O corpo não precisa de outro cabeça, porque Cristo não está ausente.
É aqui que grande parte da estrutura moderna da igreja se desviou. A suposição prática por trás de muitos sistemas é que Cristo está no céu, então a igreja precisa de outros cabeças na terra para administrar o seu povo. Mas as Escrituras não ensinam isso. As Escrituras ensinam que Cristo é o Cabeça e que o Espírito Santo foi dado ao corpo.
A liderança bíblica honra o papel do Espírito Santo
A ascensão de Cristo não criou um vácuo de liderança que precisa ser preenchido por governantes religiosos. Cristo subiu ao céu e derramou o Espírito Santo. Isso significa que o corpo pode realmente viver debaixo da sua liderança presente como Cabeça.
É por isso que a igreja é hierárquica em apenas uma direção: Cristo sobre o corpo. Entre os membros, a relação é horizontal.
Isso também afeta a forma como pensamos sobre pastoreio e pastores. Jesus é o Pastor e Bispo das nossas almas. O Novo Testamento reconhece presbíteros, mas o padrão do Novo Testamento não é um pastor funcionando como o cabeça prático de uma congregação local.
Para entender melhor por que a ideia moderna de que “todo cristão precisa ter um pastor sobre ele” não corresponde ao padrão do Novo Testamento de Cristo como Pastor e pluralidade de presbíteros, veja Todo cristão precisa de um pastor?
Isso não é rebelião contra a autoridade de Cristo. É submissão tão completa à autoridade de Cristo que nos recusamos a colocar outro cabeça sobre o seu corpo.
Um só Cabeça, muitos membros: por que o corpo é horizontal debaixo de Cristo
A imagem da igreja como corpo de Cristo é uma das imagens mais importantes do Novo Testamento. Um corpo tem ordem, coordenação, função, diferença e vida. Mas um corpo tem apenas uma cabeça.
Cada membro do corpo se relaciona diretamente com a cabeça, sem outra hierarquia de autoridade no meio. A cabeça não envia um sinal para o coração mandar o braço dizer ao dedo que se mova. A atividade de cada membro é ordenada e coordenada diretamente pela cabeça.
Os outros membros do corpo não são organizados em uma hierarquia uns sobre os outros. Eles servem uns aos outros.
As instruções bíblicas para a comunhão cristã exigem que cada membro possa falar. A maioria dos sistemas hierárquicos de igreja hoje restringe isso, o que significa que são desenhados em rebelião contra o Espírito de Cristo.
É por isso que muitas reuniões cristãs hoje apagam o Espírito Santo de forma sistemática. Seus paradigmas hierárquicos se opõem ao desejo do Espírito Santo de manifestar a graça de Deus por meio de cada membro do corpo de Cristo.
Para entender melhor como o paradigma bíblico de liderança cristã é radicalmente diferente daquilo que muitos de nós fomos ensinados a esperar, veja o artigo Por que os líderes da igreja devem falar por último.
Submissão bíblica não é submissão a uma hierarquia humana
Uma das primeiras objeções que as pessoas levantam contra este ensino diz respeito à submissão. Elas presumem que, se Jesus proibiu a hierarquia entre seus discípulos, então não pode haver submissão, correção, prestação de contas ou ordem.
Essa suposição é demonstravelmente falsa. Veja nosso artigo sobre submissão no temor do Senhor para entender mais profundamente como é uma submissão bíblica que não se baseia em uma hierarquia de autoridade.
“Sujeitando-se uns aos outros no temor do Senhor” contrasta com a submissão no temor de homens em hierarquias religiosas ordenadas por homens. Esse tipo de submissão tem protegido abusadores, silenciado o discernimento, desculpado falsas doutrinas e levado igrejas inteiras ao erro.
A submissão bíblica faz o oposto. Ela nos leva a nos submeter a Cristo, às Escrituras, à verdade, ao Espírito Santo e ao corpo, à medida que Cristo fala por meio dos membros. Ela nos leva a “ser persuadidos” por aqueles que são exemplos de Cristo, não a obedecer sem questionar por causa de um “cargo” hierárquico.
A falsa escolha: hierarquia ou caos
Outra objeção comum é que, sem hierarquia, haverá caos. Muitos cristãos foram treinados a acreditar que existem apenas duas opções: hierarquia ou desordem.
O corpo de Cristo tem ordem, mas não é a ordem de um governo terreno. Um corpo tem coordenação, mas não é a coordenação de uma cadeia de comando militar.
A Estrela-do-Mar e a Aranha comenta que organizações não hierárquicas às vezes parecem caóticas à primeira vista, mas as ações dos indivíduos se tornam estreitamente coordenadas quando eles compartilham valores ou objetivos.
A igreja bíblica tem ordem porque Cristo é o Cabeça e todos nós recebemos um só Espírito. A igreja tem unidade porque há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos. A igreja tem correção porque a verdade é falada em amor. A igreja presta contas porque seus membros pertencem uns aos outros. A igreja tem liderança porque cristãos maduros servem, ensinam, equipam, exortam, advertem e lideram pelo exemplo.
Nada disso exige cargos hierárquicos nem um membro exercendo domínio sobre outro.
A falsa escolha entre hierarquia e caos tem causado um dano tremendo. Ela levou cristãos a aceitarem estruturas que Jesus proibiu porque temem a alternativa. Ela os fez pensar que o corpo não pode funcionar a menos que uma cabeça humana o controle. Ela os fez confundir administração institucional com ordem espiritual.
Mas o Novo Testamento mostra outro caminho. O corpo de Cristo é ordenado pela vida de Cristo.
Efésios 4:15–16 (NAA) Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,
de quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor.
Isso é ordem. Mas não é hierarquia. É o corpo inteiro crescendo em Cristo, o Cabeça, com cada junta suprindo e o corpo edificando a si mesmo em amor.
A questão não é se haverá ordem. A questão é que tipo de ordem haverá. Será a ordem das nações, com governantes exercendo autoridade sobre os outros? Ou será a ordem do corpo, com Cristo como Cabeça e os membros servindo uns aos outros em amor?
Jesus respondeu a essa pergunta: “Não será assim entre vocês.”
Existe um lugar válido para autoridade administrativa em relação a uma tarefa em torno da qual o povo de Deus está unido, como um evento evangelístico em que trabalhamos juntos. O dom de administração está relacionado à organização prática e não é a mesma coisa que um cargo de autoridade sobre outros indivíduos no corpo de Cristo.
A Estrela-do-Mar e a Aranha: por que a hierarquia não é a única alternativa ao caos
A Estrela-do-Mar e a Aranha ajuda leitores modernos a entenderem que a verdadeira ordem nem sempre exige hierarquia. A verdadeira liderança nem sempre exige senhorio. A verdadeira estrutura nem sempre exige uma cadeia de comando. A verdadeira prestação de contas nem sempre exige que uma classe de pessoas governe sobre outra.
É por isso que o livro é útil para esta discussão. Muitas pessoas nem conseguem imaginar uma igreja funcionando sem hierarquia. Elas presumem que isso é impossível. Mas organizações descentralizadas mostram que pessoas podem operar com valores fortes, propósito compartilhado, normas, liderança, responsabilidade e eficácia sem controle centralizado.
O corpo de Cristo é muito mais forte do que uma organização secular em forma de estrela-do-mar, porque a igreja não é mantida unida apenas por ideologia humana. O corpo é mantido unido por Cristo, pelo Espírito Santo, pelo evangelho, pelo amor e pela unidade da fé.
Efésios 4:4–6 (NAA) Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados.
Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.
Essa é a unidade da igreja. Não é uniformidade institucional. Não é submissão a uma cabeça humana. Não é lealdade a uma organização religiosa. É um só corpo, um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só batismo e um só Deus e Pai de todos.
A igreja como um organismo híbrido guiado pelo Espírito Santo: Cristo como Cabeça, membros como irmãos
A Estrela-do-Mar e a Aranha fala sobre organizações híbridas que combinam aspectos da biologia não hierárquica da estrela-do-mar e do sistema hierárquico da aranha. O livro incentiva líderes empresariais a encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois modelos.
Em certo sentido, a igreja é uma organização híbrida.
A parte hierárquica da estrutura bíblica da igreja não é bispos sobre pastores, pastores sobre presbíteros, presbíteros sobre membros, nem um homem sobre uma congregação. A parte hierárquica é que o próprio Cristo é Cabeça sobre a igreja.
Ideologia, círculos e redes: como características da estrela-do-mar refletem a comunhão bíblica
A Estrela-do-Mar e a Aranha descreve várias marcas de organizações descentralizadas, incluindo ideologia, círculos, redes, catalisadores e defensores. Esses conceitos não são Escritura, mas são ilustrações úteis. Eles mostram que um grupo pode ser organizado, eficaz, resiliente e frutífero sem operar por meio de uma hierarquia de cima para baixo.
Para a igreja, esses conceitos precisam ser traduzidos em termos bíblicos.
Ideologia e o senhorio de Cristo como Cabeça
Em uma organização secular do tipo estrela-do-mar, a ideologia compartilhada é a cola que mantém a rede unida. As pessoas são unidas por uma causa comum, valores comuns e propósito comum.
No corpo de Cristo, o centro comum é muito mais profundo do que ideologia. Nossa unidade não é apenas uma ideia compartilhada. É o próprio Cristo. É o Espírito Santo. É o evangelho. É a unidade da fé. É o amor de Deus derramado em nosso coração.
A igreja não é mantida unida por uma marca, uma sede, uma estrutura denominacional, uma personalidade ministerial ou uma cadeia institucional de comando. A igreja é mantida unida por um só Senhor.
Colossenses 2:18–19 (NAA) Não permitam que ninguém se faça árbitro contra vocês, fingindo humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, estando sem motivo algum cheio de orgulho na sua mente carnal,
e não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem-vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus.
Essa expressão importa: “retendo a cabeça”. O corpo é nutrido e unido ao se apegar a Cristo. Quando a igreja substitui o senhorio ativo de Cristo como Cabeça por hierarquia humana, ela já não funciona segundo a vida do corpo.
O valor comum da igreja não é apenas: “Nós cremos na mesma organização.” É Cristo. É o Espírito Santo guiando sua igreja. É a unidade da fé. É a obediência ao evangelho. É a realidade do Reino de Deus agora.
Círculos e comunhão bíblica
Organizações do tipo estrela-do-mar muitas vezes funcionam por meio de círculos: grupos relacionais com normas compartilhadas, confiança, participação e responsabilidade mútua. O ponto importante é que normas podem existir sem serem impostas por uma hierarquia de cima.
Essa é uma das percepções mais importantes de A Estrela-do-Mar e a Aranha. Descentralizado não significa sem normas. Organizações do tipo estrela-do-mar podem ter expectativas fortes, valores compartilhados, correção e responsabilidade, mas essas normas são carregadas pelo próprio povo, em vez de serem impostas por uma classe governante de cima.
Esses “círculos” são a comunhão bíblica e as congregações no cristianismo. A imagem do Novo Testamento para a comunhão não é uma multidão assistindo a uma apresentação religiosa. É o povo de Deus compartilhando a vida em Cristo. Eles oram, ensinam, exortam, confessam, corrigem, contribuem, servem, partem o pão, levam as cargas uns dos outros e edificam uns aos outros.
O corpo de Cristo tem normas. Tem verdade. Tem santidade. Tem correção. Tem prestação de contas. Mas essas coisas não deveriam ser impostas por uma classe governante que silencia os membros. Elas deveriam viver no corpo pelo Espírito Santo, pela palavra de Cristo, pelo amor mútuo e pelo temor do Senhor.
O paradigma hierárquico muitas vezes destruiu a comunhão e a substituiu por frequência a reuniões. Mas frequência não é comunhão. Assistir a um ministério não é comunhão. Sentar-se em silêncio debaixo de um programa não é o padrão do Novo Testamento.
Para um estudo mais completo sobre isso, veja nosso artigo sobre comunhão bíblica e o padrão do Novo Testamento de vida compartilhada e participação de todos os membros.
Redes e relacionamentos entre diferentes comunhões
Organizações do tipo estrela-do-mar também se espalham por meio de redes, muitas vezes através de relacionamentos já existentes, em vez de uma instituição centralizada. Elas crescem por meio de confiança, propósito compartilhado, iniciativa distribuída e pessoas que já estão conectadas umas às outras. Veja nosso hub sobre evangelismo bíblico para mais percepções sobre isso.
Os cristãos podem se reunir em casas, comunhões, congregações, ministérios ou ambientes diferentes e, ainda assim, pertencer a um só corpo debaixo de um só Senhor. O paradigma bíblico é uma só igreja na cidade, mesmo que as pessoas se reúnam em locais diferentes. Veja nosso artigo Qual igreja você frequenta?
É assim que eu funciono no corpo de Cristo. Aqueles que se apegam a modelos hierárquicos antibíblicos muitas vezes presumem que isso é doentio, rebelde, sem prestação de contas, perigoso e assim por diante.
Eles estão errados. Na verdade, isso promove mais discipulado real, mais prestação de contas e correção, mais unidade bíblica e um mover maior do Espírito. Veja os artigos em nosso hub de eclesiologia bíblica para mais percepções sobre isso.
Unidade em Cristo
Na minha própria cidade, tenho visto isso de forma muito clara no evangelismo local. Muitas “igrejas” organizadas hierarquicamente discutem e brigam por ciúmes, e as pessoas envolvidas falam como se houvesse diferentes “corpos” cristãos na cidade, com diferentes “cabeças”. Muitas vezes temos visto um modelo hierárquico levar pessoas a disputarem posição e destruírem a unidade cristã bíblica.
Mas, entre as pessoas com quem caminho em evangelismo e missões, vejo uma dinâmica diferente. Elas vêm de muitas congregações e se unem por propósito, não por hierarquia. Nunca vi brigas internas de um grupo contra outro nesses ambientes.
Vejo muitos dos aspectos das organizações do tipo “estrela-do-mar” no movimento de missões e evangelismo da minha cidade, e isso é muito mais saudável do que tantas igrejas do tipo “aranha”. Somos unidos por Cristo, pelo Espírito Santo, pelo evangelho, pelo amor e por uma missão compartilhada.
Nesse ambiente, a liderança ainda existe. Pessoas tomam iniciativa. Pessoas organizam. Pessoas exortam. Pessoas oram. Pessoas ensinam. Pessoas assumem responsabilidade. Nós nos submetemos uns aos outros em amor. Mas a unidade não é produzida por uma pessoa exercendo domínio sobre o restante. Ela é produzida pela vida comum de Cristo em seu povo.
Essa é uma das razões pelas quais a metáfora da estrela-do-mar é tão útil. Ela ajuda as pessoas a enxergarem que a vida descentralizada pode ser frutífera, organizada e poderosa. A igreja não se torna forte imitando os governos das nações. A igreja se torna forte ao reter o Cabeça e permitir que todo o corpo funcione.
Líderes bíblicos são catalisadores e defensores, não governantes sobre o corpo
A descrição de “organizações sem líderes” em A Estrela-do-Mar e a Aranha destaca pessoas que o livro chama de “catalisadores” e “defensores”. Essas pessoas realmente são líderes, mas lideram por influência, não governando.
O exemplo dos apaches: liderança sem hierarquia
Um exemplo foi o governo da tribo apache, que tinha líderes chamados Nant’an. Esses líderes não tinham uma posição de autoridade, e ninguém era obrigado a obedecê-los. Não havia consequência caso as pessoas não os obedecessem. Ainda assim, eles lideravam pelo exemplo e pela influência, não por uma posição de autoridade.
A tribo apache era uma sociedade avançada, que respondia rapidamente aos desafios e era muito mais resiliente do que outros reinos nativos. Ela tinha ordem, mas essa ordem não era hierárquica por natureza.
Os espanhóis conquistaram rapidamente tribos como os astecas, que tinham um governo central e governantes. Mas os apaches resistiram a eles por centenas de anos por causa da sua estrutura descentralizada do tipo “estrela-do-mar”.
A liderança hierárquica não torna a igreja menos vulnerável ao erro
Assim como os astecas foram fáceis de conquistar, é fácil para Satanás atacar a igreja quando o povo segue uma eclesiologia em forma de aranha. Ataque o líder central, seduza o pastor ao pecado ou ao erro, e muitos outros o seguem, ou toda a estrutura começa a desmoronar. A fé de algumas pessoas é abalada ou destruída porque um pastor caiu.
Essa é uma das grandes mentiras da hierarquia. Ela afirma proteger a igreja do erro, mas muitas vezes concentra o perigo em um só lugar. Quando um movimento é construído em torno de uma voz dominante, os pontos fortes do líder são multiplicados, mas seus pontos cegos, desequilíbrios e erros também são.
No corpo de Cristo, a prestação de contas é mais forte quando os membros têm permissão para funcionar. Cristo dá discernimento, correção, sabedoria, profecia, exortação e a capacidade de falar a verdade por todo o corpo. O modelo da aranha silencia essa proteção ao treinar os membros para receberem do centro, em vez de discernirem juntos debaixo de Cristo.
Quando somente Cristo é o Cabeça, a igreja não é conquistada pela captura de uma cabeça visível. O corpo pode corrigir, perseverar, se recuperar e continuar, porque sua vida está em Cristo e seus dons são distribuídos pelo Espírito Santo.
Como catalisadores e defensores lideram sem governar
O catalisador: uma imagem da liderança servidora sem controle
Em uma organização do tipo estrela-do-mar, um catalisador não é um CEO nem está no controle. Um catalisador inicia reações. Um catalisador conecta pessoas. Um catalisador inspira movimento. Um catalisador ajuda outros a funcionarem. Um catalisador libera a responsabilidade e a entrega a outros.
Isso está muito de acordo com a natureza da liderança cristã bíblica, especialmente do apostolado bíblico.
Um líder bíblico não se torna o cabeça do corpo. Ele ajuda os membros a responderem ao Cabeça. Ele não substitui a função do corpo. Ele ajuda o corpo a funcionar. Ele não reúne tudo em torno de si mesmo. Ele aponta todos para Cristo.
É por isso que apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres são dados para o aperfeiçoamento dos santos. Eles não são dados para fazerem o ministério enquanto os santos assistem. Eles são dados para que os santos sejam equipados para a obra do ministério.
Um catalisador não precisa dominar a sala. Ele não precisa ser o único a falar. Ele não precisa se tornar o centro. Ele não precisa que cada dom flua por meio da sua permissão. Seu objetivo não é tornar o corpo dependente dele. Seu objetivo é ajudar o corpo a obedecer a Cristo.
É por isso que creio que os líderes da igreja devem falar por último. Quando os líderes falam primeiro, falam mais e definem a conversa antes que o corpo tenha funcionado, muitas vezes silenciam sem perceber os próprios dons que deveriam equipar. Mas, quando os líderes ouvem, abrem espaço, discernem e falam de uma forma que fortalece o que o Espírito está fazendo nos membros, eles funcionam mais como catalisadores do que como governantes.
O defensor: liderança persistente sem senhorio
O defensor é outro conceito útil de A Estrela-do-Mar e a Aranha. Um defensor crê profundamente na causa e a leva adiante. Ele persiste, recruta outros, promove a ideia com intensidade e muitas vezes se torna uma voz pública ou um organizador cheio de energia.
O catalisador é como a faísca. O defensor carrega a chama. Nenhum dos dois governa. Nenhum dos dois controla o corpo.
Isso também nos ajuda a entender como a liderança bíblica pode funcionar sem controle ou sem uma hierarquia de autoridade eclesiológica.
A liderança não hierárquica não é fraca, vaga ou passiva por natureza. Ela não significa ter medo de falar, agir, confrontar, organizar ou sofrer.
Paulo não era passivo. Pedro não era passivo. Estêvão não era passivo. Filipe não era passivo. Barnabé não era passivo. Priscila e Áquila não eram passivos. Os obreiros do Novo Testamento ensinavam, pregavam, viajavam, corrigiam erros, fortaleciam igrejas, designavam tarefas, confrontavam o pecado, sofriam perseguição e entregavam a própria vida pelo evangelho.
Mas a liderança deles não era senhorio ao estilo dos gentios sobre os irmãos.
Paulo podia suplicar, persuadir, advertir, repreender, ensinar e ordenar em nome do Senhor. Mas ele não se apresentava como governante dos santos. Ele se apresentava como servo de Cristo e servo da igreja.
2 Coríntios 4:5 (NAA) Porque não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como servos de vocês, por causa de Jesus.
Essa é a diferença. Líderes bíblicos podem ser ousados sem serem senhores. Podem ser firmes sem serem governantes sobre o corpo. Podem falar a verdade sem criar uma hierarquia. Podem defender a obra sem se tornarem o cabeça da obra.
O conceito de defensor nos ajuda a evitar outra falsa dicotomia. Algumas pessoas presumem que, se a liderança não é hierárquica, então ela precisa ser fraca, incerta e ineficaz. Mas isso não é verdade. A liderança cristã bíblica leva adiante a causa de Cristo por meio da fé, do amor, da verdade, do exemplo, da perseverança e do poder do Espírito Santo.
Ainda assim, a autoridade do catalisador e do defensor na liderança da igreja não vem de uma posição hierárquica sobre os outros, mas do fato de terem sido enviados por Cristo, o Mestre! Ele é apenas um servo, mas carrega autoridade como embaixador que representa outro.
É por isso que Paulo podia dizer: “Sejam meus imitadores”, ao mesmo tempo em que negava pregar a si mesmo como senhor.
1 Coríntios 11:1 (NAA) Sejam meus imitadores, como também eu sou imitador de Cristo.
Paulo não disse: “Sigam-me porque sou o governante de vocês.” Ele disse: “Sigam-me como eu sigo Cristo.” Isso é liderança pelo exemplo, não senhorio por cargo.
Por que movimentos cristãos que se multiplicam muitas vezes se parecem mais com a estrela-do-mar
Isso não é apenas uma questão teórica. Muitos dos movimentos cristãos de multiplicação mais rápida relatados ao redor do mundo compartilham características parecidas com a estrela-do-mar: iniciativa descentralizada, cristãos comuns participando da missão, comunhão simples e reproduzível, liderança local, relacionamentos entre diferentes comunhões e ausência de controle institucional centralizado.
Isso ilustra as observações de A Estrela-do-Mar e a Aranha sobre como movimentos descentralizados se espalham como fogo e muitas vezes superam rapidamente aquilo que organizações centralizadas e hierárquicas levaram décadas para construir.
Esses movimentos têm líderes fortes, mas os líderes funcionam como catalisadores e defensores, não como governantes. Eles equipam, modelam, liberam e multiplicam, em vez de reunir toda autoridade e todo ministério em torno de si mesmos.
Exemplos como o trabalho de igrejas nas casas de Victor Choudhrie na Índia, o envolvimento de Brian Hogan no movimento de plantação de igrejas na Mongólia, os paradigmas refletidos nos escritos do nosso amigo Stephen Hill, do Harvest Now, e ministérios de treinamento e multiplicação como The Elijah Challenge ilustram, de maneiras diferentes, como uma obra cristã frutífera pode operar com valores parecidos com os da estrela-do-mar: cristãos comuns sendo ativados, iniciativa local sendo liberada, comunhões simples sendo multiplicadas e a obra se espalhando por relacionamentos em vez de hierarquia institucional.
Converso com alguns cristãos que não conseguem entender como a igreja poderia existir e florescer do jeito que Jesus ensinou, sem autoridade hierárquica. Eles estão convencidos de que isso é impossível.
Mas esses movimentos demonstram que isso não apenas é possível, como muitos movimentos cristãos do tipo “estrela-do-mar” são muito mais saudáveis, crescem mais rápido e dão mais fruto do que suas organizações religiosas hierárquicas do tipo “aranha”.
Conclusão: Cristo é o Cabeça, e os membros são irmãos
Jesus não disse aos seus discípulos que exercessem autoridade de forma mais gentil do que os gentios. Ele disse: “Não será assim entre vocês.” Essa ordem não elimina a liderança, a ordem, a correção, a submissão nem a autoridade que vem de Cristo. Ela elimina o modelo gentílico de um membro exercendo senhorio e autoridade sobre outro.
A igreja não é sem liderança. Ela tem Cristo como Cabeça. Há um só Mestre, um só Pai, um só Guia, um só Pastor, um só Senhor e um só Cabeça. Os membros não são organizados como governantes e súditos, pais e filhos, cabeças e subordinados, nem como uma classe ministerial e uma classe ouvinte. Jesus disse: “Vocês todos são irmãos.”
É por isso que o corpo de Cristo pode ter estrutura sem hierarquia, liderança sem senhorio, submissão sem temor de homens, autoridade sem controle e unidade sem uniformidade institucional. O Espírito Santo não precisa de uma cadeia humana de comando para conduzir o corpo. Cristo não precisa de outros cabeças para governar seus membros.
A Estrela-do-Mar e a Aranha ajuda a expor a falsa suposição de que as únicas alternativas são hierarquia ou caos. Pode haver ordem real, valores compartilhados, normas, missão, liderança, prestação de contas, resiliência e multiplicação sem controle centralizado. Mas a igreja é maior do que uma organização do tipo estrela-do-mar. Ela é um corpo vivo debaixo do Cabeça vivo, mantido unido pelo Espírito Santo e pela unidade da fé.
O paradigma hierárquico não protegeu a igreja. Muitas vezes ele silenciou os membros, apagou o Espírito Santo, treinou cristãos a esperarem permissão de homens e tornou movimentos inteiros vulneráveis aos erros de um líder central. Mas Jesus nos deu um caminho melhor: Cristo como Cabeça, o Espírito em cada membro, e irmãos e irmãs servindo uns aos outros em amor.
O Novo Testamento não substitui o senhorio gentílico por um senhorio cristão. Ele substitui o senhorio entre os membros pelo serviço debaixo de Cristo. Cristo é o Cabeça. Os membros são irmãos. E Jesus disse: “Não será assim entre vocês.”
Perguntas frequentes sobre “Não será assim entre vocês” e a hierarquia na igreja
O que Jesus quis dizer com “Não será assim entre vocês”?
Jesus quis dizer que o modelo de autoridade dos governantes terrenos não deve definir os relacionamentos entre os seus discípulos. Em Lucas 22, Mateus 20 e Marcos 10, Jesus contrastou os governantes gentios, que exercem senhorio e autoridade sobre os outros, com o seu próprio modelo de serviço. Ele não estava apenas alertando os líderes para serem menos duros. Ele estava proibindo o padrão gentílico de senhorio entre os seus seguidores.
Jesus proibiu toda liderança na igreja?
Não. Jesus não proibiu liderança, ensino, correção, maturidade, responsabilidade ou administração. Ele proibiu o senhorio e a autoridade sobre os outros entre os seus discípulos. A liderança bíblica funciona por meio de serviço, exemplo, verdade, persuasão, maturidade espiritual, capacitação e obediência a Cristo, não por meio de um membro governando sobre outro.
A igreja deve ser uma comunidade sem liderança?
Não. A igreja não é sem liderança; ela tem Cristo como Cabeça. O Novo Testamento ensina que Cristo é o Cabeça do corpo. Os membros do corpo não são organizados como governantes espirituais e súditos espirituais uns debaixo dos outros. Eles são irmãos e irmãs debaixo de um só Senhor.
Como a igreja pode ter ordem sem hierarquia?
A igreja tem ordem porque Cristo é o Cabeça, o Espírito Santo guia o corpo, as Escrituras dão a verdade, e os membros se submetem uns aos outros no temor do Senhor. Ordem não exige uma cadeia humana de comando. Um corpo tem coordenação, estrutura, correção e função sem que um membro governe sobre os outros.
Qual é a diferença entre autoridade vinda de Cristo e autoridade sobre cristãos?
Autoridade vinda de Cristo é autoridade para obedecer a ele, pregar o evangelho, curar enfermos, expulsar demônios, falar a verdade, fazer discípulos e realizar sua obra redentora. Autoridade sobre outros cristãos é o modelo ao estilo dos gentios que Jesus proibiu. A autoridade cristã se origina da concordância com Cristo como seu servo, não de uma posição ou cargo hierárquico.
Como A Estrela-do-Mar e a Aranha se relaciona com a liderança da igreja?
A Estrela-do-Mar e a Aranha ajuda a ilustrar que estrutura real, liderança, valores compartilhados, normas, prestação de contas, resiliência e multiplicação podem existir sem hierarquia centralizada. A igreja não é uma estrela-do-mar sem cabeça, porque Cristo é o Cabeça. Mas, entre os membros, o corpo de Cristo é horizontal: todos são irmãos debaixo de um só Senhor.

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