
O dízimo obrigatório não é apenas uma doutrina financeira. É uma doutrina eclesiológica. Ele ensina aos cristãos o que é a igreja, quem é o sacerdócio, quem recebe sustento sagrado, quem fala, quem serve, quem é servido e onde a autoridade está localizada.
Embora existam alguns cristãos que acreditam que você deve entregar o dízimo onde Deus o guiar, eles parecem ser minoria. A maioria dos ensinos atuais sobre o dízimo se baseia nestas três pressuposições:
- O dízimo sustentava o sacerdócio no Antigo Testamento.
- Os pastores de hoje correspondem ao sacerdócio do Antigo Testamento.
- Os pastores de hoje têm o direito de receber dízimos assim como os sacerdotes do Antigo Testamento tinham.
Há muitos problemas nessas três pressuposições sobre o dízimo, o sacerdócio e os pastores. O dízimo no Antigo Testamento era muito diferente de qualquer coisa ensinada hoje, e não era a principal fonte de sustento dos sacerdotes. No entanto, vamos deixar isso de lado por enquanto e considerar como essas três pressuposições afetam a maneira como a igreja realmente funciona.
A conexão com o sacerdócio é o motivo pelo qual o dízimo não é uma doutrina isolada. Ele tem implicações profundas para o funcionamento da igreja. É por isso que este artigo faz parte do nosso estudo sobre eclesiologia bíblica, que examina o desenho de Deus para a igreja e para a liderança cristã.
Aqueles que defendem o dízimo obrigatório hoje podem facilmente afirmar que creem no sacerdócio de todos os crentes, na unidade da fé, no ministério quíntuplo ou quádruplo, em Cristo como cabeça da igreja e em outras verdades que abordamos neste artigo. Porém, enquanto acreditarem que o pastor da Nova Aliança corresponde aos sacerdotes do Antigo Testamento, seu pensamento e sua prática negarão essas verdades de várias maneiras. Isso impede o pleno funcionamento do corpo de Cristo.
O Espírito Santo deseja manifestar sobrenaturalmente a graça de Deus por meio de cada membro do corpo de Cristo. Deus opera por meio da encarnação, habitando em seu povo e capacitando-o. Visto que Deus opera por meio da igreja, a maneira como a igreja funciona tem implicações profundas para a nossa experiência do poder de Deus entre nós.
O Sacerdócio de Todos os Crentes e o Sumo Sacerdócio de Cristo
Como o sacerdócio do Antigo Testamento se cumpre na Nova Aliança? Quais são as implicações de ensinar que os pastores do Novo Testamento correspondem aos sacerdotes do Antigo Testamento? Como isso afeta, na prática, a maneira como a igreja funciona hoje?
A doutrina do dízimo não apenas surgiu de uma eclesiologia antibíblica, isto é, de uma compreensão errada de como a igreja funciona. Ela também reforça uma eclesiologia antibíblica. Esse modelo antibíblico impede a igreja de funcionar como Deus deseja e, assim, apaga o Espírito Santo.
Todos os Cristãos Pertencem a um Sacerdócio Santo
O “sacerdócio de todos os crentes” se refere à verdade bíblica de que todos os cristãos são sacerdotes para o nosso Deus. O sacerdócio da Antiga Aliança não se cumpre em uma classe ministerial especial, mas em todo o povo de Deus.
1 Pedro 2:5, 9 (NAA) também vocês, como pedras que vivem, são edificados casa espiritual para serem sacerdócio santo, a fim de oferecerem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo.
Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
Jeremias 31:34 (NAA) Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: “Conheça o Senhor”, porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles, diz o Senhor. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.
Na Antiga Aliança, os sacerdotes precisavam passar por um processo especial de purificação que envolvia a aspersão de sangue, e somente os sacerdotes podiam se aproximar do Senhor. Na verdade, somente o sumo sacerdote podia entrar no Santo dos Santos, e apenas uma vez por ano.
Mas, na Nova Aliança, todo crente é aspergido e purificado pelo sangue de Jesus e recebe acesso além do véu, ao Santo dos Santos. Não precisamos que outra pessoa entre nesse lugar por nós.
É por isso que as instruções bíblicas para a comunhão cristã exigem de forma clara e explícita que honremos cada membro do corpo de Cristo, permitindo que todos falem e ministrem.
Atribuir o sacerdócio a uma classe ministerial especial sempre impede a igreja de funcionar como o sacerdócio de todos os crentes. O Dr. Russell Earl Kelley, que concluiu sua tese de doutorado sobre o dízimo, declarou:
A introdução do dízimo surgiu em proporção direta à desintegração da doutrina do sacerdócio dos crentes e ao surgimento do poder dos bispos-sacerdotes.[1]
[1] Kelly, Russell Earl. Should the Church Teach Tithing?: a Theologian’s Conclusions about a Taboo Doctrine. New York: Writers Club Press, 2007. p. 247.
Cristo é o Sumo Sacerdote
Enquanto o sacerdócio se cumpre em todos os crentes, o sumo sacerdócio se cumpre no próprio Jesus.
Hebreus 4:14 (NAA) Tendo, pois, Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que entrou nos céus, conservemos firmes a nossa confissão.
É por isso que a Escritura diz que há um só Mediador entre Deus e os homens.
1 Timóteo 2:5 (NAA) Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem.
No entanto, quando defensores do dízimo equiparam “entregar o dízimo ao seu pastor” com dar o dízimo ao sumo sacerdote ou a “Melquisedeque”, eles colocam o pastor em um lugar que somente o próprio Cristo deve ocupar. Benjamin Cox argumentou em 1658 que tratar os dízimos como devidos por direito divino “na prática derruba o sacerdócio de Cristo”.
“o pagamento dos dízimos como devidos por direito divino é tal estabelecimento da lei levítica sombria que, na prática, derruba o sacerdócio de Cristo…”
Association Records of the Particular Baptists of England, Wales and Ireland to 1660
Como o Dízimo Muda a Estrutura e a Liderança da Igreja?

Quando o ensino sobre o dízimo se baseia na pressuposição de que pastores são sacerdotes, a igreja cai em dois grandes erros:
- O papel do pastor substitui ou suprime o sacerdócio de todos os crentes.
- O papel do pastor substitui ou enfraquece o papel de Jesus como sumo sacerdote e cabeça da igreja.
É por isso que, quando conversamos com pessoas formadas dentro do paradigma do dízimo, geralmente estamos lidando com todo um ecossistema de pensamentos e práticas antibíblicas. Aqui estão algumas formas pelas quais o paradigma do dízimo sustenta uma eclesiologia defeituosa, impedindo o corpo de Cristo de funcionar como Deus deseja:
Pluralidade de Presbíteros ou Pastor Único?
No Novo Testamento, os termos “pastor” e “bispo” são sinônimos de “presbítero”. Os presbíteros realizam o trabalho de pastorear, ou apascentar. E o Novo Testamento ensina a pluralidade de presbíteros, não um único pastor liderando a igreja.
Como seria difícil dar salário integral a todos os presbíteros, o paradigma do dízimo muitas vezes presume que existe um “Pastor” que tem direito a um salário integral pago pelos dízimos. Assim, ele rebaixa ou até ignora o papel dos outros presbíteros na igreja.

Lembro-me de quando um pastor simplesmente disse: “Sabe, nós realmente não precisamos mais de presbíteros.” Ele já era visto como o responsável por tudo de qualquer maneira, então não fez tanta diferença quando acabou completamente com os presbíteros.
Mas isso não é bíblico nem saudável. É um bom exemplo de como aqueles que mais falam sobre “prestação de contas” às vezes são justamente os que não prestam contas a ninguém.
Quando o Papel de Jesus como Pastor é Substituído
A Escritura usa repetidamente o substantivo singular “pastor” para se referir ao próprio Jesus, mas nunca a outros líderes da igreja. De uma perspectiva bíblica, temos “pastores” no plural, que são presbíteros na igreja, mas o singular “meu pastor” se refere somente ao próprio Jesus.
No entanto, se usamos a linguagem bíblica e dizemos: “Meu pastor é Jesus”, isso soa escandaloso para pessoas presas ao paradigma do dízimo, porque, de certa forma, elas colocaram o pastor em uma função de sumo sacerdote que pertence somente ao próprio Jesus. Assim, a igreja deixa de reconhecer e honrar o papel de Jesus como nosso único Pastor.
Como o papel do pastor é tão exagerado, espera-se que ele “pastoreie” muitas pessoas. Mas fazer isso de forma eficaz é impossível para uma só pessoa. É por isso que Deus nos deu uma pluralidade de presbíteros.
Assim, o papel de “pastor” muitas vezes acaba separado da função real de “apascentar” o rebanho de Deus. Ele passa a ser associado a entregar monólogos, administrar uma organização e liderar programas. Por isso, muitas pessoas chamam alguém de “pastor”, mas na verdade vivem como ovelhas sem pastor.
Nosso artigo O Que a “Igrejidade” Não Entende Sobre Pastores e o Corpo de Cristo explica os resultados disso com mais profundidade.
O Papel do Pastor Toma o Lugar do Corpo de Cristo na Comunhão Bíblica
A Escritura exige de forma absoluta que todos tenham permissão para falar em uma reunião cristã. Porém, enxergar o pastor como o sacerdote que recebe o dízimo dá a ele responsabilidades que deveriam pertencer ao sacerdócio de todos os crentes.
Assim, programas de espectadores substituíram a comunhão cristã bíblica, na qual todos contribuem. As instruções da Escritura para as reuniões cristãs são praticamente ignoradas. Essas reuniões apagam sistematicamente o Espírito Santo e mantêm a maior parte do corpo de Cristo paralisada.

Na verdade, falar demais ou brilhar demais em um ministério capacitado pelo Espírito Santo pode ser visto como ameaça ao status do pastor como recebedor do dízimo.
Dessa forma, deixamos de receber Jesus entre nós quando deixamos de honrar o corpo de Cristo.
Isso está intimamente ligado à mentalidade de que “os líderes são os que falam”, quando a Bíblia ensina que todo o povo de Deus deve ter permissão para falar. Veja Por Que os Líderes da Igreja Devem Falar por Último!
O exagero de um único pastor em contraste com a pluralidade de presbíteros não é ruim apenas para a igreja. Também é ruim para os pastores. Pastorear se torna uma função muito mais pesada do que Deus jamais planejou, e isso esgota e fere muitos pastores e suas famílias.
O Dízimo Promove Divisão, Como se Houvesse Diferentes Cabeças e Diferentes Corpos
A Escritura sempre usa o substantivo singular “igreja” para se referir à igreja em cada cidade, ainda que houvesse vários presbíteros ou líderes e ainda que eles se reunissem em mais de um lugar. Há somente um corpo, com uma só cabeça, que é Cristo.
Efésios 4:4-6 (NAA) Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.
Muitas pessoas dentro do paradigma do dízimo falam, na prática, como se existissem diferentes corpos com diferentes cabeças. Elas perguntam: “De qual corpo você faz parte?”
Alguns até chamam o pastor de “cabeça” daquele corpo. O famoso pregador C. H. Spurgeon considerava esse tipo de linguagem blasfema. Veja A Cabeça da Igreja.
Argumentos a favor do dízimo muitas vezes equiparam “entregar o dízimo a Cristo” com “dar o seu dízimo ao pastor”. Esses argumentos se baseiam em um erro eclesiológico sutil, no qual Cristo é apenas a figura simbólica da liderança, não a verdadeira cabeça da igreja.
Isso frequentemente leva a uma dinâmica em que os líderes, na prática, tentam fazer o trabalho do Espírito Santo. Então os cristãos passam a se identificar carnalmente como seguidores deste ou daquele líder, em vez de se unirem como seguidores de Cristo.
Como há diferentes “cabeças” recebedoras de dízimos, os cristãos passam a pensar como se houvesse diferentes “corpos”, e perdemos a unidade bíblica da fé debaixo de Cristo. O paradigma resultante fica tão distorcido que, se um cristão responde biblicamente à pergunta “De qual igreja você é?”, sua resposta parece escandalosa.
Veja “Em Que Igreja Você Vai?” Respondendo a Objeções Religiosas — Parte Um para uma análise mais profunda dessa dinâmica.
O Dízimo Transforma a Liderança em uma Posição que Exige Ser Servida
Quando os discípulos de Jesus estavam discutindo sobre quem era o maior, ele respondeu:
Mateus 20:26-28 (NAA) Mas entre vocês não será assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de vocês; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Você não pode exigir que as pessoas lhe deem um dízimo obrigatório sem exigir ser servido. Você pode ensinar o dízimo obrigatório e falar sobre liderança servidora, mas não conseguirá demonstrá-la na prática.
Na verdade, enxergar os pastores como os “sacerdotes” que podem exigir dízimos cria a dinâmica de um ministério exigindo ser servido por outros ministérios. Isso contrasta com a oferta voluntária, na qual os diferentes membros do corpo de Cristo servem uns aos outros.
A Doutrina do Dízimo Geralmente Rebaixa Apóstolos, Profetas e Evangelistas
A Escritura fala de diferentes ministérios e funções dentro do corpo de Cristo. Isso costuma ser chamado de “ministério quíntuplo”.
Efésios 4:11-12 (NAA) E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo.
Há um bom argumento de que “pastores e mestres” se refere à mesma função, de modo que talvez isso pudesse ser chamado com mais precisão de “ministério quádruplo”.
No entanto, muitos ensinos sobre o dízimo afirmam que você deve entregar o dízimo à sua “igreja local” ou ao pastor, e que pode sustentar missionários e outros ministérios apenas por meio de ofertas voluntárias. Como isso se parece na prática?
A palavra “apóstolo” vem da ideia grega de alguém enviado, enquanto “missionário” vem do latim missio, também relacionado à ideia de ser enviado. Nesse sentido, “missionário” é essencialmente um equivalente derivado do latim para o conceito grego de apóstolo. Creio que existem muitos apóstolos verdadeiros hoje, mas o “apostolado” não é uma alta posição hierárquica, como alguns têm interpretado.
Quando eu era jovem, estava planejando uma viagem missionária para a Rússia. Eu havia estudado o idioma e já tinha estado lá duas vezes. Mas tudo parecia dar errado, e comecei a me perguntar se eu havia entendido mal a voz de Deus.
Então o Espírito Santo confirmou por meio de profecia, através de várias pessoas que eu nunca tinha conhecido, que Deus estava me enviando. Três dias depois, senti o amor de Deus pela Rússia se tornar uma corrente tangível de poder fluindo pelo meu corpo da cabeça aos pés.
Deus me enviou. Em grego, ὁ Θεὸς ἀπέστειλέν με, ou “ho Theos apesteilen me”.
Mas, em vez de pagar o dízimo à igreja local, usei meu dinheiro naquela viagem. Com o tempo, o pastor disse: “Não podemos mais apoiar o seu ministério.”
Há evangelistas nas igrejas locais que trabalham mais arduamente para compartilhar a palavra de Deus com os incrédulos do que seus pastores trabalham para entregar uma pregação semanal. Ainda assim, espera-se que eles “sirvam” a um pastor por causa da sua “posição”.
Fui à Ilha do Marajó com um grupo em 2023, uma região onde algumas pessoas nunca ouviram o evangelho. Viajamos 20 horas de barco. Conheço pessoas que estão lá agora.
Nenhum de nós recebeu dízimos para ir. Pelo contrário, a maioria dos cristãos é ensinada que só pode contribuir para missões e evangelismo depois de “pagar seus dízimos”, e aqueles que vão são ensinados que precisam pagar dízimos a um pastor local.
Exigir que os dízimos sejam destinados a “um pastor local”, mas não ao fortalecimento de missionários, evangelistas ou profetas, exagera a importância do pastor local enquanto desvaloriza os ministérios de missionários, evangelistas e profetas.

Na verdade, ministérios de missões e evangelismo muitas vezes são chamados de ministérios “para-eclesiásticos”. Isso sugere que eles nem sequer fazem parte da igreja como os “pastores” fazem, ou que são ministérios não essenciais.
O resultado, muitas vezes, é que as igrejas se tornam profundamente voltadas para dentro, e a Grande Comissão, a tarefa que Jesus deu à sua igreja, vira uma preocupação secundária.
Rejeitar o dízimo não significa que os cristãos nunca devam sustentar financeiramente presbíteros, mestres, evangelistas, apóstolos, viúvas ou os pobres. A questão não é se esse sustento é exigido ou dado. A questão é se um dízimo obrigatório é usado para criar uma classe sacerdotal, centralizar poder e exaltar certos membros à custa de outros.
O Dízimo Cria Hierarquia e Centralização
Nosso artigo recente, O Que Jesus Quis Dizer com “Entre Vocês Não Será Assim”? Autoridade, Hierarquia e o Corpo de Cristo, examina a ordem explícita de Jesus proibindo seus discípulos de exercer autoridade ou domínio uns sobre os outros como governantes. Jesus disse: “Vocês todos são irmãos.”
Uma premissa central é que a autoridade no corpo de Cristo não vem da posição de uma pessoa sobre outra, mas da concordância com Cristo e com sua palavra. Um apóstolo era um servo sem posição hierárquica própria, mas carregava autoridade porque o Mestre o havia enviado.
Depois examinamos algumas ideias do livro A Estrela-do-Mar e a Aranha para entender os benefícios de organizações descentralizadas e de uma liderança não hierárquica baseada em influência e valores compartilhados, não em cargo. Foi assim que Jesus ensinou que sua igreja deveria funcionar. A Estrela-do-Mar e a Aranha mostra como movimentos e organizações descentralizados e não hierárquicos muitas vezes se espalham rapidamente e são difíceis de derrotar.
Os espanhóis derrotaram os astecas rapidamente porque eles tinham um lugar central que podia ser atacado e um rei que podia ser capturado ou morto. Mas os apaches resistiram aos invasores por centenas de anos por causa de sua liderança descentralizada e não hierárquica. Seus líderes tinham influência, mas não uma autoridade que precisava ser obedecida.
Mas algo significativo aconteceu antes de os apaches serem subjugados. O livro chama isso de “Princípio da Vaca”. Dar vacas aos líderes apaches para que eles as distribuíssem deu a eles uma forma de poder sobre os outros.
Isso centralizou o poder, criando desigualdade e, assim, formando uma hierarquia na qual eles já não eram mais “todos irmãos”. Também despertou ambição egoísta e conflitos entre diferentes líderes apaches.
Dessa forma, os apaches puderam ser subjugados. Controle os líderes, e você controla o povo.
O “Princípio da Vaca” é este: se você quer derrotar uma organização ou movimento descentralizado, centralize o poder. O dízimo obrigatório dado a uma classe ministerial especial se parece muito com dar vacas aos líderes apaches. Ele muda a forma como a igreja funciona, criando uma hierarquia com diferentes classes de crentes e centralizando o poder.
Isso, por sua vez, torna a igreja vulnerável a ataques e fácil de controlar e manipular. Também sufoca o crescimento rápido pelo qual organizações descentralizadas são conhecidas.
Essa centralização muitas vezes aparece na crença antibíblica de que um prédio especial é a casa de Deus ou é essencial para haver igreja. Pelo contrário, a igreja primitiva se reunia em casas e não teve outros edifícios até centenas de anos depois de Cristo.
O Dízimo se Alimenta de uma Dependência Doentia, Desencoraja a Maturidade e Prejudica o Discipulado
A Escritura diz que Cristo deu dons à igreja com um propósito específico. Agarrar-se ao controle derrota esse propósito.
Efésios 4:11-13 (NAA) E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo.
O objetivo desses ministérios é que toda a igreja chegue à maturidade. Nenhum pai quer que seus filhos dependam dele para sempre. É bom quando eles aprendem a se alimentar sozinhos em vez de acordar às três da manhã chorando por uma mamadeira. É maravilhoso quando aprendem a usar o banheiro e você não precisa mais trocar fraldas.
Como vimos em nosso estudo sobre o discipulado bíblico, Jesus disse aos seus discípulos: “Convém a vocês que eu vá”, depois de três anos e meio. Quantos pastores que recebem dízimos você conhece que têm pressa de fazer o mesmo?
O alvo dos líderes cristãos deveria ser trabalhar até que não sejamos mais necessários da mesma forma. Porém, o paradigma do dízimo incentivou uma dinâmica em que é difícil até imaginar liberar pessoas como Jesus fez. O que se incentiva é dependência perpétua, não maturidade cristã. Se a dependência acabar, o que acontecerá com os dízimos?
É por isso que muitas vezes comento que esses sistemas parecem me oferecer uma mamadeira quando estou com fome de churrasco, ou esperam que eu fique sentado numa aula de jardim de infância. É como se eles não tivessem nenhuma estrutura mental para lidar com maturidade espiritual. Eles nem sabem o que fazer com ela.
Conclusão: Quando o Dízimo Substitui o Governo de Cristo e o Sacerdócio de Todos os Crentes
Não escrevi isto como uma condenação geral de todos os pastores e líderes nos sistemas religiosos que descrevo. Alguns realmente amam o povo de Deus. Alguns realmente têm chamados ministeriais. Na verdade, um número crescente de pastores entende que a igreja precisa desesperadamente de reforma e está buscando alinhar sua prática mais de perto com a Escritura.
Creio na comunhão e na edificação de todos os que amam sinceramente o Senhor Jesus. Mas há muitas pessoas com quem tenho comunhão e a quem amo que estão envolvidas em sistemas religiosos que simplesmente não funcionam para mim. Na prática, esses sistemas me impediriam de seguir Jesus.
A ideia de que os pastores de hoje são equivalentes aos sacerdotes do Antigo Testamento, a fim de receber dízimos, não é bíblica. E ela tem implicações profundas para a nossa eclesiologia.
Já vi movimentos que enfatizam missões e evangelismo, capacitação de cristãos comuns para o ministério, liderança servidora, unidade e discipulado. Ainda assim, eles sempre ficam aquém quando se agarram ao paradigma do dízimo.
Eles dizem: “Todo mundo participa”, mas ainda não têm o nível de participação que a Bíblia descreve. Falam de “liderança servidora”, mas alguém acaba exigindo ser servido. Falam de discipulado, mas acabam sufocando a maturidade.
Isso acontece porque a ideia de que o Pastor é um Sacerdote do Novo Testamento que deve receber dízimos é fundamentalmente contrária a todos esses valores bíblicos. Ela promove a exigência de ser servido, não cada membro do corpo servindo aos outros.
O paradigma de “dizimar para cima” deixa de honrar todo o corpo de Cristo. Ele incentiva dependência em vez de discipulado ou maturidade. Promove eventos de espectadores em vez do funcionamento do sacerdócio de todos os crentes. Promove ambição egoísta e controle, não a unidade bíblica debaixo de uma só Cabeça.
Estamos examinando sistemas inteiros de valores teológicos, não apenas doutrinas isoladas. Veja nosso estudo sobre eclesiologia bíblica para uma análise mais ampla das instruções da Bíblia sobre o funcionamento da igreja e a liderança cristã. Veja também nosso estudo sobre o dízimo como falso evangelho para entender melhor o dízimo e como ele também afeta a soteriologia ao enfraquecer a doutrina da salvação pela graça, por meio da fé em Cristo.
Fique atento ao próximo artigo sobre crescimento por multiplicação ou por adição! Você verá como os sistemas de valores do dízimo e da oferta voluntária têm implicações profundas para a forma como a igreja cresce.
Perguntas Frequentes Sobre Dízimo e Liderança da Igreja
O dízimo obrigatório afeta a liderança da igreja?
Sim. O dízimo obrigatório pode afetar a liderança da igreja ao transformar um cargo ou função ministerial no centro financeiro da igreja. Quando o dízimo é tratado como algo devido a um pastor, a uma instituição de igreja local ou a uma classe ministerial especial, a liderança pode se tornar centralizada em vez de funcionar por meio de todo o corpo de Cristo debaixo do seu governo.
O Novo Testamento ensina que pastores substituem os sacerdotes do Antigo Testamento?
Não. O Novo Testamento não ensina que pastores substituem os sacerdotes do Antigo Testamento. O sacerdócio da Antiga Aliança se cumpre em Cristo como o grande Sumo Sacerdote e em todos os crentes como sacerdócio santo e real. Pastores, presbíteros e mestres podem servir a igreja, mas não se tornam uma classe sacerdotal separada que recebe dízimos em nome de Deus.
Como o dízimo pode enfraquecer o sacerdócio de todos os crentes?
O dízimo pode enfraquecer o sacerdócio de todos os crentes quando treina os cristãos a enxergar o ministério como algo realizado principalmente por um cargo religioso pago. Em vez de cada membro funcionar, falar, servir, contribuir e edificar o corpo, a igreja pode acabar dividida entre ministros oficiais e apoiadores passivos.
Rejeitar o dízimo obrigatório significa rejeitar o sustento do ministério?
Não. Rejeitar o dízimo obrigatório não significa rejeitar o sustento do ministério. Cristãos podem sustentar livremente presbíteros que trabalham bem, mestres, evangelistas, missionários, os pobres, viúvas, crentes em sofrimento e necessidades locais. A questão não é se contribuir é bíblico, mas se um dízimo obrigatório deve ser usado para criar uma classe sacerdotal ou centralizar a autoridade da igreja.
Por que o dízimo costuma promover o modelo de pastor único?
O dízimo costuma promover o modelo de pastor único porque é difícil tratar cada presbítero, evangelista, missionário, mestre e servo no corpo como igualmente digno de sustento dentro de um sistema de dízimo centralizado. Na prática, o dízimo frequentemente fica ligado a um pastor principal ou a uma instituição, o que pode enfraquecer a pluralidade de presbíteros e reduzir outros ministérios a papéis secundários.

Deixe um comentário